Lição de Abismo

Aqui e ali, perguntam-me por que cito com freqüência Shakespeare nos meus escritos, sobretudo Hamlet. Ora, é preciso desconhecer o dramaturgo inglês para não se apaixonar pelos textos que legou à posteridade, em especial a história do príncipe da Dinamarca, que se finge de louco para vingar a morte do pai, cuja aparição como fantasma denuncia o seu assassino. Passados quatro séculos desde que veio a público, Hamlet continua a emocionar, instigando o pensamento do homem mundo afora. Confesso que releio esta peça sempre que posso, sem falar nas vezes que vejo suas adaptações para o cinema, a exemplo do que fiz esta semana com alunos do CEFET. O de Laurence Olivier, considero a melhor de suas adaptações.

O enredo, como dizia, gira em torno da dúvida gigantesca que se apodera do jovem contemplativo e sonhador Hamlet, ao saber que o pai, de mesmo nome, supostamente vitimado por uma picada de cobra, fora de fato assassinado por seu irmão Cláudio, que se casara com Gertrude, viúva do soberano morto. O fantasma de Hamlet-pai aparece a seu filho no castelo de Elsinore, para revelar a verdade e pedir-lhe vingança. Nasce daí uma das mais tensas tessituras dramáticas em redor da tentativa de elucidação do que estaria “podre no reino da Dinamarca.” Instala-se o “ser ou não ser” que me parece o grande eixo temático da obra, quando o jovem de índole pacata e terna é levado a cumprir o pedido do pai, em meio a dúvidas e hesitações, que fazem de Hamlet uma das maiores realizações da literatura dramática.

Pensando tratar-se do tio Cláudio, Hamlet mata Polônio, pai de Ofélia, sua amada, que escondido atrás de uma cortina escuta o desabafo do jovem príncipe a sua mãe. O crime enseja em Laertes, filho de Polônio, a ânsia de vingança. No duelo com que Shakespeare desfechou sua mais importante peça, morrem os personagens centrais da tragédia, inclusive o príncipe Hamlet, não sem antes consumar a vingança sobre o tio Cláudio. Fortimbrás assume o trono: está restabelecida a verdade no reino da Dinamarca.

Obra aberta, como Humberto Eco conceitua os textos que permitem múltiplas interpretações, Hamlet exemplifica a função sinfrônica da literatura, posto que permanece atual e enseja os mais variados significados ao longo de quatrocentos anos. De minha parte, vejo-a muito mais do que uma simples peça sobre a vingança, como a sinopse acima pode, superficialmente, sugerir. Tal qual nos sentimos todos os homens aqui e além, cedo ou tarde, por muito ou pouco tempo, em definitivo quem sabe, Hamlet fala-nos do conflito humano, das nossas buscas, dos nossos anseios, dos dilemas com que construímos o nosso universo marcado por tantas contradições.

A versão cinematográfica de Olivier, que aponto como a melhor, é datada de 1948. Nela, além de interpretar o príncipe da Dinamarca (diga-se em tempo, magistralmente bem), Sir Laurence Olivier aparece como diretor. Se é verdade que fez algumas alterações no texto, o que é compreensível em se tratando de adaptações, o filme guarda a densidade dramática da peça, como disse, das maiores de que se tem notícia. A quem interessar possa, há nas locadoras da cidade uma outra adaptação, com Mel Gibson e direção de Franco Zeffirelli. Num e noutro, com uma vantagem incontrastável para o primeiro, pode-se beber no gênio de Shakespeare o que há de mais representativo em termos de existência humana, onde quer que se vivam os dramas de consciência e de vontade. Afinal, ser ou não ser, ao que me parece, é a interminável questão. Eis a lição que vem do abismo.

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