As cartas tão modernas de Alcoforado

 
Esta semana reli as Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado. Há em torno dessas escrituras um mito jamais decifrado. Quem de fato as teria escrito? Quantas teriam sido as cartas? De concreto, apenas a data em que foram publicadas pela primeira vez: 1669, em francês, com o título de Lettres Portugaises Traduites, sem o nome do autor. Algum tempo depois, por volta de 1810, o escritor português Filinto Elísio traduziu para o vernáculo. Como tantos outros fatos curiosos da grande literatura (o caso de Homero à frente), o que importa é que existem e são, modernamente, atribuídas à religiosa portuguesa. E mais: constituem uma produção estética de inegável qualidade, com marcas estilísticas que permitem a sua classificação periodológica, o barroco. São cinco, ao todo, mas é a terceira dessas cartas que mais me impressiona, pela intensidade do amor que expressa, e do sofrimento decorrente da desilusão que a torna uma peça sempre atual. Afinal, as dores decorrentes das perdas amorosas fazem parte da história dos amantes, do passado remoto aos dias atuais.
 
"Que vai ser agora de mim? Que pensas tu que eu faça? Quão longe me vejo de quanto imaginava? Esperava que me escrevesses de todos os lugares por onde passasses; que as tuas cartas fossem muito longas; que alimentasses a minha paixão com a esperança de tornar a ver-te; que uma confiança absoluta na tua fidelidade me desse uma espécie de repouso, e que ficaria assim num estado suportável, sem extremos de dor." É assim que Alcoforado, a quem se atribui hoje em dia a autoria desses textos, inicia a carta em que me apoio para tecer essas breves considerações sobre o livro.
 
O objeto das cartas da missivista portuguesa seria, supostamente, um militar francês que servira em Portugal e travara com a religiosa uma relação de amor desmedido, inaceitável para os valores da época. Tratava-se de uma religiosa, de uma mulher recolhida à intimidade de um convento, dedicada em juramento à prática da meditação, da oração e outras ações circunscritas aos preceitos de um catolicismo fervoroso e imaculado. Chamilly, o oficial gaulês, teria em hipótese seduzido a missivista, a quem jurara amor eterno, o que, nem mesmo no mundo das artes, salvo um e outro caso, tem correspondência no plano da realidade. Destacado a servir em outras paragens, jamais cumpriu o que prometera, enlevado presumivelmente por novas conquistas não se sabe onde.
 
"Adeus. Como eu quisera nunca te haver visto. Sinto profundamente a falsidade desta idéia e conheço, no mesmo instante em que a escrevo, que bem mais prezo, do que nunca te haver visto, ser desgraçada, amando-te. [...] Adeus! Promete-me se eu morrer de amor, ter saudades de mim, e logre ao menos a desgraça violenta da paixão apartar-te de tudo com desgosto." O texto, como se vê, é perpassado de contradições, de idas e vindas, de conotações amorosas paradoxais, que beiram ora a sensualidade do amor carnal, ora a espiritualidade de um platonismo incontido. Mostrá-las ao leitor como faço agora, no espaço exíguo de uma coluna de jornal, é não fazer justiça à densidade dramática da espistológrafa, mas que valha como um convite à leitura integral da obra, uma preciosidade do gênero.
 
"Adeus, mais uma vez!... Escrevo-te cartas tão compridas! [...] Peço-te perdão e ouso esperar que tenhas indulgência por esta pobre louca, que não o era, bem sabes, antes de te amar." E decidida a silenciar o seu amor gigantesco e dolorosamente internalizado no mais profundo da alma em desespero, Alcoforado termina assim sua terceira carta: - "Mas, do fundo do coração, te agradeço o desespero que me causas e detesto a tranquilidade em que vivia antes de conhecer-te. Adeus! A minha paixão aumenta a cada hora. Ai, quantas coisas tinha ainda para te dizer!..." Uma obra encantadora, que se coloca à perfeição no contexto do que há de mais representativo na mais elevada literatura do amor cortês. Escritas num passado tão remoto. E tão atuais. Recomendo.

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