A vida de Michelângelo Buonarroti

Amiga, que assina prestigiada coluna de jornal da cidade, telefona-me pedindo o título do livro que estou lendo e um breve comentário sobre o mesmo. Quando lhe digo que se trata de uma biografia de Michelângelo Buonarroti, publicada pela primeira vez em 1550, estranha e pede que lhe repita o nome. O livro, de Giorgio Vasari, só agora foi integralmente traduzido para o português e se trata do mais antigo e mais respeitado estudo sobre vida e obra do genial artista do Renascimento italiano. Está, quentinho, nas livrarias, sob a chancela da Editora Unicamp, com tradução, introdução e comentários de Luiz Marques, curador-chefe do MASP e professor de história da arte do Departamento de História da Universidade de Campinas.
 
Pelo que pude concluir do estranhamento da jornalista (compreensível para a proposta da sua lidíssima coluna) o livro foi considerado muito "especializado" para figurar numa coluna social como indicação de leitura, num espaço onde, não raro, aparecem publicações de auto-ajuda ou romances de escritor da moda que me recuso a indicar para quem quer que seja, sem medo de parecer arrogante ou ferir princípios do politicamente correto. Até porque o livro de Vasari, que é o precursor da História da Arte, pode ser lido por qualquer pessoa e nem por isso vai deixar de ser prazeroso e bastante interessante.
 
Que Michelângelo é um dos expoentes da escultura da Renascença   --  e o pintor do maior e mais importante conjunto pictórico do mundo (estou falando dos afrescos do teto e parede de fundo da Capela Sistina, no Vaticano), acho que é fato já muito conhecido. O que talvez só os amantes da Arte saibam, todavia, é que, ao lado do artista extraordinário, Michelângelo Buonarroti foi também um homem especial, de uma inteligência singular e um temperamento intenso e explosivo, que marcaram dialeticamente a sua passagem pela vida artística de Florença, Bolonha e, sobretudo, Roma, onde fixou residência durante boa parte do pontificado de Júlio II, de quem foi amigo próximo.
 
Repleto de fatos curiosos, que prendem o leitor da primeira à última página, A vida de Michelângelo Buonarroti está dividido em capítulos minúsculos, exceto um e outro em que Vasari dedica-se a discorrer com mais minúcias acerca de ocorrências curiosas, ou quando volta a sua atenção para obras mais expressivas do gênio de Arezzo, como é o caso das pinturas do teto da capela construída pelo papa Sisto IV, tio de Júlio II, para quem Michelângelo, contra a sua vontade pessoal, realizou a obra monumental. Ou a escultura de Moisés, a quem, de tão perfeita, ao concluí-la, num ato falho, o artista ordenara: - "Agora, fala!"
 
Conta em favor da biografia escrita por Giorgio Vasari (um pintor e arquiteto de talento mediano), para além das qualidades de estilo e profundidade, o fato de ter sido ele amigo pessoal de Michelângelo, a quem teria submetido o texto orginal do livro e de quem guardou até a morte as muitas cartas que lhe foram endereçadas pelo fenômeno da escola de Florença. Numa delas, reportando-se à inveja suscitada em outros artistas ligados a Júlio II, faz alusão a Rafael, outro gigante do Renascimento italiano: - "Todas as discórdias que nasceram entre o papa Júlio e mim derivam da inveja de Bramante e Raffaelo da Urbino." Excelente leitura para todos aqueles que gostam da Arte, o livro de Vasari é obrigatório para quem lida intelectualmente com ela. Se a indicação vai ou não ser publicada pela amiga colunista (pessoa que admiro muito!) são outros quinhentos, mas a indicação está feita. 
 
 
 
 
 
 
 
 

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