Clube da esquina 2

As pernas já não atendem com desenvoltura ao comando da mente. Ele, como que se arrasta por toda a extensão do palco e a barriga, protuberante, faz contraponto com o rosto já quase desfigurado pela doença. Ouvidos os primeiros acordes, contudo, e a voz explode, possante, inconfundível, espalhando-se pelo imenso bosque, bem no coração da Pampulha. Ao seu lado, a fina flor da música popular mineira, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Tavinho, Wagner Tiso, Fernando Brant, para falar de alguns nomes de que me recordo no momento em que me sento para escrever a coluna de hoje.
 
Refiro-me, está claro, a Milton Nascimento, o Pituca, que esta semana veio a Belo Horizonte para a festa dos 40 anos do Clube da Esquina 2, um dos movimentos de música popular de maior personalidade e mais força criativa dos anos 70, nascido entre as montanhas desta cidade tão exuberante e tão singular, artística e intelectualmente falando. O cenário, como ficou sugerido, vem a calhar, o campus da UFMG, tomado, em sua assustadora maioria, de gente nova, garotos e garotas que sequer tinham vindo à luz quando esses mineiros se reuniam, numa esquina de rua, para produzir coisas extraordinárias do cancioneiro brasileiro, a exemplo de músicas inesquecíveis, como Cais, Um girassol da cor do seu cabelo, Trem azulNada será como antes, Paixão e fé, Nascente, Olho d'água, Maria Maria e tantos sucessos da maior qualidade estética da segunda geração do Clube.
 
O nome do movimento, pois, vem do fato de que esses artistas, quase meninos, não tendo espaço mais adequado para fazer arte (grande arte, diga-se de passagem), sentavam-se na calçada de uma esquina, violão grudado ao peito, para tirar de suas cordas sons que misturavam linhas estéticas diversas, fundindo a batida suave da Bossa Nova a elementos do jazz e, não raro, do rock'n'roll.
 
Mas a poesia, que o movimento tem o seu viés literário não menos inspirado e original, dava-nos pérolas de que nenhum amante da MPB pode um dia esquecer: "Para quem quer se soltar invento o cais / Invento mais que a solidão me dá / Invento lua nova a clarear / Invento o amor e sei a dor de me lançar / Eu queria ser feliz / Invento o mar / Invento em mim o sonhador / Para quem quer me seguir eu quero mais / Tenho o caminho do que sempre quis / E um saveiro pronto pra partir / Invento o cais / E sei a vez de me lançar".
 
Ao final do show, cuja duração de quase três horas quase ninguém percebe, Milton se despede, sorriso largo e solto, a expressão mesmo de um deus, mas não resiste ao pedido de bis que sai da multidão como um coro ensaiado, e abre o peito em direção ao sem fim de um céu esplendidamente  enluarado: "Eu simplesmente não consigo parar / Lá fora o dia já clareou / Mas se você quiser transformar / O ribeirão em braço de mar / Você vai ter de encontrar / Aonde nasce a fonte do ser / E perceber meu coração / Bater mais forte só por você / O mundo lá sempre a rodar / E em cima dele tudo vale / Quem sabe isso quer dizer amor / Estrada de fazer o sonho acontecer".  O resto, só emoção e saudade.
 
 
 
 
           

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