Arte, empulhação à parte

Depois de prolongada ausência, desde que vândalos invadiram perversamente o blog, voltamos pesarosos com a morte da artista plástica Tomie Ohtake, na última quinta-feira 12. Considerada a maior expressão das artes visuais brasileiras hoje, Tomie nasceu em Tóquio em 1913, mas se mudou para São Paulo aos 23 anos, naturalizando-se pouco depois. Aos 101 anos, fora acometida de pneumonia e sofreu uma parada cardíaca no hospital Sírio Libanês, na capital paulista.
 
Dona de um estilo inconfundível e um vocabulário em que sobressai o perfeito equilíbrio entre geometria e cor, Tomie Ohtake notabilizava-se por produzir uma arte de elevado senso estético, contrapondo-se ao vazio de sentido e conteúdo por que se orienta grande parte dos artistas contemporâneos. Polêmica à parte, há entre a grande dama do pós-modernismo brasileiro e seus pares um abismo que os separa, resistindo com elegância aos apelos da cultura de consumo a que muitas boas promessas da pintura brasileira vieram, infelizmente, entregar-se.
 
Mas seu prestígio não se deve unicamente à pintura. Como escultora, Tomie Ohtake guarda a mesma força de linguagem, o refinado manuseio das formas e dos volumes, equilibrando-se com segurança no delicado fio que separa o clássico do transgressor. É nessa perspectiva que se deve ver o expressivo conjunto de esculturas espalhadas pela cidade de São Paulo, como um bálsamo tranquilizador diante do caos da metrópole.
 
Na pintura, todavia, é que conquistou o reconhecimento desde os primeiros trabalhos, em pleno domínio do abstracionismo geométrico, lá pelos anos 60, produzindo, na contramão dos modismos reinantes à época, um figurativismo marcado pela clareza do estilo e pela personalidade na escolha dos motivos explorados. Só mais tarde, na linha do que se verificaria até seus últimos trabalhos, dedicar-se-ia a realizar obras abstratas, sem jamais, contudo, desprezar o rigor estético que foi sempre uma de suas características como artista plástica.
 
Num tempo em que a arte parece capitular diante da lógica do mercado, curvando-se ao "discurso" de marchands e curadores que tomam como parâmetro o valor do mercado em detrimento das reais qualidades estéticas da obra, a morte de Tomie Ohtake representa uma perda maior do que é possível dimensionar de imediato. Ela pode simbolizar a divisão definitiva entre o passado e o presente nas artes brasileiras, reeditando um juízo vulgar e estúpido do modernismo de primeira hora e de que, ainda, não conseguimos nos desvencilhar.
 
A exemplo dos grandes nomes do cânone ocidental, Picasso e Matisse, para não citar dezenas de outros gênios que me ocorrem neste instante, não é muito lembrar que Tomie Ohtake, figurativa ou não, sempre assumiu ter suas raízes estéticas fincadas nos expoentes da Renascença e do século XVIII, para o desgosto de uma práxis dominante "desprovida de poética e pathos".
 
A perda de Tomie Ohtake aponta para um Brasil mais pobre e menos criativo em termos artísticos. Aos 101 anos, é importante lembrar.
 
 
 
 

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