Entre o ridículo e o sublime

O maior sucesso do ano em termos cinematográficos é um filme pífio. Refiro-me a 50 Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson, que vem batendo recordes de bilheteria mundo afora. Baseado no best seller de E. L. James, o enredo pode ser assim resumido: Anastasia, uma jovem recém-graduada, é encarregada de substituir uma amiga numa entrevista com o paraninfo da turma, o bilionário Christian Gray. Explorando o nervosismo de sua entrevistadora, o intimidante "homenageado" a seduz de imediato, levando-a pouco depois a sua mansão. O que se vê a partir daí é uma sequência de tolices, algo condizente com o que existe de mais adocicado em qualquer novela das 6: com direito a tudo, como voos de helicóptero e presentes de tirar o fôlego, entre outras coisas. Anastasia apaixona-se pelo príncipe encantado,  de quem fica conhecendo bizarrices e excentricidades que vão da recusa a dormir com uma mulher na mesma cama a impor-lhe a assinatura de um contrato em que a seduzida admite submeter-se a sessões de sadomasoquismo com que Gray atinge a plenitude do seu prazer sexual. Tudo, é claro, obedecendo a uma cláusula de confidencialidade da parceira. E haja futilidades mil.
 
O filme, que tem o canastrão Jamie Dornan no papel de Christian Gray e uma sofrível Dakota Johnson como Anastasia, não se salva nem mesmo pelo ingrediente que deu ao livro a garantia de sucesso junto a um público predominantemente feminino e pouco exigente em termos literários: mesmo as sequências de sexo são anódinas, incapazes de gerar nas mais irrealizadas e carentes das matronas qualquer arrepio. Pelo contrário, as cenas de sexo-tortura têm levado o público a expressar risinhos de decepção mal termina a exibição do filme.
 
Isto para não descer a detalhes que importam ao cinéfilo mais sensível em termos estéticos, posto que os diálogos beiram ao padrão sessão da tarde do que há de mais rasteiro na programação da tevê. Nem mesmo a fotografia merece destaque positivo, em que pese ter por detrás das câmeras uma artista visual respeitada. Sam Taylor-Johnson, para quem não se recorda, dirigiu Nowhere Boy, o melhor filme já realizado sobre John Lennon.
 
Sem me poupar ao risco de ser contradito pela grande crítica, não raramente obtusa e tendenciosa, a exemplo do que se pode constatar a cada ano em alguns dos mais prestigiados festivais de cinema da Europa e dos Estados Unidos, ouso dizer: 50 Tons de Cinza é um dos maiores embustes em termos cinematográficos dos últimos dez anos. Confira.
 

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Na contramão desse sucesso de bilheteria ridículo, felizmente, o bergmaniano Ida, do polonês Pawel Pawilikowski desponta como o mais brilhante trabalho da atual temporada. O filme narra a trajetória da noviça Anna (Agata Trzebuchowska), que é obrigada por suas superiores a visitar uma tia, Wanda (Agata Kulezsa), uma juíza judia a quem cabe conduzir a sobrinha por longa viagem até os restos mortais dos pais, assassinados durante o domínio nazista.

 

Pela primeira vez, pelo que sou capaz de lembrar, um filme trata dos horrores do holocausto sem recorrer às batidas imagens de filmes anteriores. O que se vê, pela competência da direção de Pawilikovski, é o efeito do holocausto sobre diferentes gerações de judeus, a forma como a câmera explora o mundo interior das personagens, a profundidade da dor e do sofrimento de quem, como Anna/Ida, não teve alcance para compreender o que se passava aos familiares no auge da perseguição ao povo judeu.

 

O filme esbanja beleza formal. A fotografia é deslumbrante, o ritmo, intencionalmente arrastado, vai construindo a tessitura dramática a cada quadro, num preto e branco que nos faz lembrar Ingmar Bergman da trilogia do silêncio. Sublime.

 
 
 
 
 
 
 
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