O milagre da Arte

Semana que passou visitamos, Ticiana e eu, o Getty Center, em Los Angeles. Trata-se de um dos principais complexos culturais dos Estados Unidos, de cujas edificações explode para os céus de Brentwood, o bairro em que está localizado, uma beleza entre desconcertante e profundamente sedutora.
 
O projeto, do arquiteto Richard Meier, é considerado, por si só, uma das obras mais fascinantes do conjunto artístico abrigado pelo centro construído com recursos do famigerado bilionário Jean Paul Getty. Ali estão em pleno funcionamento o Jean Paul Getty Museum e inúmeras outras instituições ligadas ao estudo, à conservação e à produção artística, a exemplo do Getty Research Institute e Getty Conservation Institute.
 
Dentre as principais ações e projetos, destaca-se a formação de museólogos, sem falar do aperfeiçoamento de profissionais ligados à memória cultural e artística.
 
Duas exposições são destaque nesse início de ano: a de impressionistas e pós-impressionistas franceses, com destaque para monstros sagrados do porte de Manet, Monet, Van Gogh, Gauguin e, embora estranho ao estilo, ninguém menos que o espanhol Pablo Picasso. A outra, reunindo o maior número de obras num só espaço independente, Turner, Painting Set Free, com algo em torno de 60 quadros do pintor inglês, a quem não raro se considera o precursor do modernismo nas artes visuais.
 
Polêmica à parte, sobressai o fato de Joseph Mallord William Turner ser um artista absolutamente extraordinário, quer pela força dramática que advém de suas telas carregadas de cor e luz, quer pelos temas que constituem uma de suas marcas inconfundíveis,  paisagens e marinhas tipicamente românticas. Não é muito afirmar, por isso, que Turner encarna o espírito Sturm und drang, algo como "paixão e ímpeto", emoções comumente identificadas na perspectiva da literatura e da música como características marcantes da arte romântica.
 
Diferentemente de alguns museus, mesmo da Europa (e do Brasil, sobretudo), impressiona que o Getty Center invista tanto do seu alcance como complexo cultural na formação de novos amantes da arte. É impressionante o número de crianças com que deparamos em halls, galerias e salões do complexo. A uma dada altura, particularmente tocada com o fato, estranhos aos padrões brasileiros, como disse, Ticiana me chama a atenção para um detalhe curioso: munidos de lápis ou pincéis, meninos e meninas dedicam-se a reproduzir livremente, sob o olhar atento do professor, telas importantes do cânone das artes plásticas ocidentais.
 
De uma delas posso ouvir a exclamação tocante: "splendid!". Volto o olhar e vejo à minha frente 'um belo Rubens', de quem o Getty Center exibe, entre outros, A Marry Company, cuja dramaticidade e retorcido da sintaxe nos remete ao mais intenso clima barroco.
 
Diante dessas crianças, ocorre-me compreender à perfeição o que nos ensina Mikel Dufrenne, o filósofo francês: se o artista cria a obra de arte, cabe ao espectador, pela percepção contemplativa, viver a epifania do objeto estético, ter acesso ao mundo do artista e descobrir, nele, o seu próprio mundo, empenhando-se em embelezá-lo e, com ele, à vida inteira que vivemos. O milagre da Arte.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

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