A desmoralização do símbolo

Costuma-se imaginar a Justiça pela simbologia da deusa Têmis, que na mitologia grega é representada por uma mulher de olhos vendados, tendo na mão esquerda, erguida, uma balança, e na direita, em descanso, uma espada. Alegoriza, assim, o que deve nortear os julgadores no sentido moral, tocados pela verdade e pela equidade, colocando-se acima das paixões humanas.

Não é isso, infelizmente, o que se vê habitualmente nos tribunais, não raro movidos por interesses inconfessáveis. Em um e outro momento da História, pois, deparamos com a negação dessas sugestões simbólicas, com julgamentos conduzidos com parcialidade e envolvimento subjetivo daqueles aos quais cumpre emitir veredictos e estabelecer punições.

No Brasil dos últimos cinco anos é o que se vê: absolve-se por excesso de provas, condena-se por "achismos" que mais evidenciam inclinações pessoais que empenho em defender os interesses da sociedade ou o bem comum.

Na narrativa grega, Têmis era respeitada por todos, sua sabedoria só comparável à de Minerva. Mais que a Justiça, desse modo, representava a própria Lei, por isso a venda nos olhos, como a afirmar a absoluta imparcialidade.

Numa adaptação grosseira, muito embora bem intencionada, tiraram-lhe a venda dos olhos para ampliar sua força simbólica, passando a representar outro objetivo a ser defendido pelo homem, a Justiça Social, segundo a qual deve ser enfrentado com determinação e altruísmo tudo o que assegura privilégios, de que resulta a exploração do outro.

A Justiça, em condições ideais, existe para garantir a igualdade entre os homens, para tapar o fosso que separa ricos e pobres, pretos e brancos, dominantes e dominados.

Segundo os preceitos da Igreja Católica, por exemplo, são quatro as virtudes ditas cardinais, a Justiça a primeira delas, seguida pela Fortaleza, a Prudência e a Temperança. Através delas, portanto, será assegurado a todos o acesso à vida plena, nunca roubando-lhes direitos e conquistas.

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem provas materiais que a justifiquem, traz à pauta um debate de fundo. Onde a balança de Têmis, a sugerir o equilíbrio do juízo, a ponderação, a imparcialidade? Onde a espada, que, apontada para o chão, sem constituir ameaça, sugere a serenidade do julgamento e o rigor da interpretação? Onde a venda dos olhos, para ignorar a influência dos poderosos e as bandeiras partidárias?

Desde o início sabíamos: o objetivo era tirar Lula da disputa pelo cargo de presidente em 2018. Moro conseguiu. Digo melhor: os golpistas conseguiram; o PSDB conseguiu; os empresários conseguiram. A elite brasileira, a mais perversa de que se tem notícia, conseguiu.

O campo, outra vez, está livre para os ricos e poderosos. No Brasil, a Justiça não é cega. Ela enxerga bem, vê com nitidez os objetivos que persegue.

 

 

 

  

 

 

 

 

 


 

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