sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Tenho uma dor aqui, do lado da pátria

Diante da violenta ação policial nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou na execução sumária de mais de uma centena de pessoas, entre as quais muitos adolescentes, a maioria identificados como bandidos, impõe-se ao juízo de muitos a necessidade de que, no combate aos traficantes que assomam país afora, tudo é válido e aceitável, mesmo que ao arrepio da lei e da mais elementar noção do que seja o Estado de Direito.
Prato cheio para as pretensões eleitorais da extrema direita, ávida de retomar o poder e implantar políticas de segurança pública baseadas na convicção de que violência se combate com violência, e, a exemplo do que se viu na terça-feira no Rio de Janeiro, autorização prévia para execuções extrajudiciais que extrapolam até mesmo o Direito de Guerra.
É revoltante, não fosse antes lamentável que se pense assim, num país em que a riqueza é desumanamente concentrada, e no qual as classes dominantes permanecem indiferentes ao caos em termos de segurança pública, contanto que preservados seus privilégios e garantidas as formas muitas vezes inconfessáveis de aumentar sua fortuna.
Há pouco mais de 24 horas do início da operação (um sucesso, nas palavras do governador Cláudio Castro), contam-se 121 mortos. Muitos deles com tiros de fuzil à queima-roupa, pés e mãos amarrados, outros com perfurações de faca e alguns literalmente decapitados.
Na esteira das estarrecedoras imagens exploradas à exaustão pelos principais jornais e tevês brasileiras, em que se veem dezenas de corpos enfileirados numa praça da Penha, pôde-se perceber: eram quase todos negros.
Atacam-se as consequências, ignoram-se as causas, numa lógica de interpretação intencionalmente alheia às relações do tráfico de drogas, entre outras práticas da criminalidade, com as engrenagens perversas da economia, da forma de governar (de que o Rio é tradicionalmente o melhor exemplo) e das instituições públicas, não raro indiretamente envolvidas em práticas de favorecimento de lideranças do PCC e do Comando Vermelho.
E haja oportunismo e desfaçatez, bem na linha do que professam os governadores do Rio, de Minas e de Goiás, os dois últimos já em plena campanha como virtuais candidatos da extrema direita a presidente.
Para essa gente, não importa que comunidades e vidas sejam sacrificadas em nome da "ordem e do progresso", numa alusão freudiana que remete ao lema positivista do pavilhão nacional. A uma e outra, pouco significa que falte o saneamento, escolas, postos de saúde, creches, áreas de esporte e lazer, espaços de convivência, programas de incentivo à arte e à leitura, pois que é menos custoso para o Estado a compra de "caveirões" com que transportar cadáveres --- e a indiferença diante dos esgotos a céu aberto dentro dos quais se misturam a lama podre dos dejetos e o sangue ainda quente das execuções.
Se é procedente a afirmação de que nem todos os problemas de segurança são de cunho social, não há negar que jamais haverá para os mesmos qualquer solução que ignore a desigualdade social no país, das mais alarmantes mesmo na perspectiva de países pobres.
No desfecho da coluna de hoje, cabe uma derradeira informação: a Polícia Civil do Rio de Janeiro acaba de divulgar a lista parcial de 99 mortos na operação da última terça-feira nos complexos do Alemão e da Penha. Desses, nenhum havia sido identificado pelo Ministério Público na investigação em que se baseou a operação. Ou seja: nenhum deles tinha mandado de prisão relacionado a esse processo.
Diante desse quadro de horror e incertezas, ocorrem-me os versos de Cristina Peri Rossi, poeta uruguaia sobre cuja obra escreverei aqui na próxima crônica: "Tenho uma dor aqui/do lado da pátria".
 
  
 
  

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Mera coincidência

Convidado a participar de debate sobre Mera coincidência (1997), por um ato de correção intelectual senti-me condicionado a revê-lo. E qual não foi a minha satisfação ao perceber o quanto o belo filme de Barry Levinson guarda irretocável atualidade, quer do ponto de vista dos meios de expressão adotados pelo diretor, quer pelo que representa como uma contundente crítica às práticas inconfessáveis que imperam nas relações entre políticos e mídia, num tipo de conluio recorrente em que, desde tempos remotos, o objetivo é manipular o povo em favor de interesses não menos inconfessáveis. Explico-me.
 
O filme narra um caso fictício muito próximo do que, sabemos, é comum ocorrer não só nos Estados Unidos, país em que está ambientado o filme de Levinson, mas em quase todos os lugares do mundo: a criação de factoides com motivações políticas.
 
No caso, tudo tem início quando um presidente e candidato à reeleição americano é flagrado em prática de abuso sexual contra uma adolescente. A exatos 11 dias da eleição, o fato tem uma repercussão monstruosa e ele começa a despencar nas pesquisas, para o que sua equipe é mobilizada a fim de tentar reverter a situação.
 
É contratado, para tanto, um especialista em campanhas chamado Brean (Robert De Niro), que, por sua vez, decide contratar Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor de cinema de Hollywood, para realizar uma peça 'cinematográfica' sobre uma suposta guerra dos EUA contra a então pobre e inexpressiva Albânia.
 
O filme é produzido, a imprensa passa a explorar a guerra improvável e o presidente, amparado no apelo nacionalista que a notícia comporta, volta a liderar com margens irreversíveis as pesquisas de intenção de voto.
 
Mas, como é comum em todo ardil, a montagem do espetáculo mostra-se falha, quando a Casa Branca, ávida de resultados, põe os pés pelas mãos e divulga a retirada de suas tropas do território inimigo antes do tempo previsto por Brean (a cena em que Robert De Niro e Dustin Hoffman tomam conhecimento da ação irrefletida do governo é impagável). Que fazer então?
 
Lança-se mão do plano B: na linha do que ocorrera a Ryan, a famosa personagem do filme de Steven Spielberg, um soldado americano teria ficado sob o controle dos albaneses, o que leva o presidente a determinar o seu resgate. Novas trapalhadas à parte, finalmente o presidente é reeleito, mas um detalhe vem se constituir num elemento dramático importante: Stanley Motss não pode usufruir do imenso prestígio conquistado junto à Casa Branca. O que lhe terá ocorrido?
 
O roteiro de Mera coincidência é, como se pode ver, curioso, intrigante, bem construído, na linha do que Barry Levinson fizera antes, nomeadamente com Rain Man, filme com que conquistou o Oscar e o Urso de Ouro do Festival de Berlim, em 1989. Mas o estilo e a originalidade com que manipula os meios de expressão é o que mais impressiona (ou me impressionou, para ser mais exato). Vejamos.
 
Mera coincidência constitui, enquanto estrutura narrativa, um exemplo clássico de metalinguagem, ou seja, sua tessitura realiza-se como num "movimento para o abismo", expressão com que André Gide definiu a sobreposição de narrativas, ou, em termos mais claros, a ocorrência de uma narrativa dentro da qual se desenvolve outra narrativa. Filme dentro do filme.
 
A narrativa de primeiro plano, cujo desenvolvimento conta a história de um escândalo e a necessidade de se criarem factoides capazes de reverter os prejuízos para o envolvido (o presidente candidato à reeleição), alicerça-se sobre a construção de uma outra narrativa: aquela que é confiada a Stanley Motss.
 
As sequências de realização do filme que induzirá ao logro, da produção do roteiro à direção da atriz durante as filmagens, são, neste sentido, emblemáticas, para não falar da presença de operadores de câmera, auxiliares de direção, iluminadores, maquiadores etc., elementos que, ainda mais, tornam explícito o discurso metalinguístico.
 
O fato de determinadas críticas serem realizadas no interior de estruturas de produção restritivas, como ocorre ao filme Mera Coincidência, leve-se em conta o fato de que existem nos Estados Unidos códigos de conduta para os diretores de cinema, por si só justificaria o meu entusiasmo com o filme.
 
Mas Barry Levinson foi muito além. Seu filme, enquanto constructo artístico, é irrepreensível. Os enquadramentos dos atores, em que sobressaem os closes reveladores do ânimo e das emoções das personagens, por exemplo, são estilizados e inovadores, mesmo para um tempo em que tudo parece já ter sido feito em termos cinematográficos. 
 
Ainda assim, é também notável a movimentação de câmera, sua angulação em cada plano, a luz, utilizada à perfeição, bem como a direção de atores, são elementos estéticos que fazem de Mera coincidência um grande filme. O engodo de que são vítimas os eleitores americanos, nessa mise en abyme que é a narrativa dentro da narrativa, parece extrapolar os limites da realização fílmica  --  e servem para mostrar que somos manipuláveis também.

Em tempos de tantas incertezas, sob ameaças de um novo imperialismo norte-americano, guerras e práticas autoritárias que pensávamos definitivamente varridas do cenário geopolítico internacional, rever uma obra como Mera coincidência, de Barry Levinson, é uma experiência que emociona e enriquece, pois que a arte dita convencional, na contramão do que propõem os que professam a sua morte em tempos de IA --- ainda pulsa, viva e resiliente, a denunciar o lado torto da existência. 

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Histórias de plágio (ou não) na música popular brasileira*

Semana que passou escrevi neste espaço sobre "intertextualidade", citação, influência etc., e a prática ilícita da apropriação, cópia, furto, e outros procedimentos ilícitos vulgarmente chamados de plágio. Ao final do texto, pelas limitações de espaço, tão-somente fiz referência ao interessantíssimo livro "Você diz que meu samba é plágio", de Juca Novaes e Rodrigo Mendes, que acabara de ler. Terminava a coluna, por oportuno, com a observação de que voltaria ao tema. Faço-o hoje, reafirmando tratar-se de uma publicação incontornável sobre a matéria polêmica.
Intencionalmente, como os autores deixam evidenciado na Introdução ao livro, o título é feito de um trecho da música "Você não ouviu" (1966), de Chico Buarque de Holanda. De cara, pois, o livro expõe a sua vocação desinteressada, tomando-se o termo no sentido de descontraído, leve, gostoso, ainda que sem jamais abrir mão do rigor informativo. Coisa preciosa no gênero, portanto.
Imagine o que existe de inquietante em se saber que clássicos do cancioneiro popular brasileiro, músicas que nos acompanharam em diferentes fases de nossas vidas, "de repente, não mais que de repente", como está em Vinicius de Moraes, tenham a sua autoria questionada. Mais que isso, que essas músicas sejam apontadas como exemplos de "plágios descarados", bem na linha do que ocorre em casos de artistas da nossa mais assumida admiração, a exemplo de um certo Raimundo Fagner que, com justiça, por seu talento e inquestionável competência artística, figura entre as maiores expressões da Música Popular Brasileira. No mínimo, inquietante, para não dizer estarrecedor.
Entre os mais de 80 pequenos artigos, talhados todos eles em estilo que transita da notícia jornalística para a crônica especializada, com vasta e criteriosa referência às fontes, os autores, também eles compositores e músicos, além de advogados especializados em Direito Autoral, percorrem a história da música brasileira expondo os casos mais notórios de plágios e/ou acusações levianas que macularam ou destruíram reputações artísticas, desde épocas remotas aos dias de hoje.
Nesse sentido, é quase impossível destacar um ou outro desses fatos sem incorrer num tipo de subjetivação, tão numerosos e absolutamente interessantes são todos eles, como o da marchinha "Cidade Maravilhosa", de autoria de André Filho (1906-1974), muitas vezes acusada de plágio de um trecho de "La Bohème, de Puccini.
A polêmica, minuciosamente examinada pelos autores desse belíssimo livro, foi tanta e tão séria, que o vexame a que foi exposto o autor torna-se mais curioso que qualquer conclusão acerca do suposto plágio. Como a pouparem-se de entrar no mérito, o que roubaria do livro o componente prazeroso da leitura, Juca Novaes e Rodrigo Moraes proporcionam ao leitor, antes, uma experiência lúdica, um jogo que ao mesmo tempo deleita e ensina, à maneira de Horácio, poeta da Roma Antiga.
São igualmente sedutores, e delimitados pelo mesmo fio delicado que separa a constatação da injúria, os casos em que estiveram envolvidos nomes lendários da música brasileira, como Mário Lago (1911-2012), autor de "Nada Além" (com Custódio Mesquita), de 1938. Lago foi acusado de cometer o mesmo ilícito em pelo menos duas ou três composições por ele assinadas, sendo "Aurora" (com Roberto Roberti), de 1940, o caso mais relevante: "Se você fosse sincera ô ô ô ô, Aurora/Veja só que bom que era, ô ô ô ô, Aurora".
Que dizer das acusações assacadas contra Chico Buarque ("Januária"), Caetano Veloso ("Marinheiro só"), Roberto Carlos ("Eu disse adeus"), Tom Jobim ("Insensatez"), Vinicius de Moraes ("Samba em prelúdio") ou mesmo o maestro Villa-Lobos? Sobre esses, é preciso frisar, Juca Novaes e Rodrigo Moraes saem em defesa explícita, isentando-os de plágio ou considerando aceitáveis as influências reconhecidas em algumas músicas de enorme sucesso. Tudo isso, a preservar a seriedade do estudo, com a adoção de critérios que sobressaem a eventuais fumaças da mera fofoca ou inconsequentes rumores.
Caso particular, por tratar-se de omissão imperdoável ou apropriação indébita, volto a referir, envolve o compositor cearense Raimundo Fagner Cândido Lopes, em pelo menos dois gravosos exemplos, ambos no disco de estreia, "Manera Fru Fru Manera", de 1973. Nele, a letra da música "Canteiros", escancaradamente copiada do poema "Marcha", de Cecília Meireles, aparece no disco sem qualquer referência à poeta carioca, bem como a belíssima "Penas do Tiê", indiscutível reescritura de composição do folclorista, compositor e maestro alagoano Hekel Tavares.
No primeiro caso, o artista cearense alega responsabilidade da gravadora, Polygram, por não lançar o encarte ao disco em que apareceria o nome de Cecília Meireles. No segundo, infelizmente, o próprio Fagner retratou-se em carta, abrindo mão dos direitos autorais da música em favor dos filhos de Hekel Tavares. Ainda assim, insinua ignorar a existência prévia da composição supostamente plagiada.
Conclusivamente, retomo o eixo de argumentação da coluna anterior: não fica afastada a hipótese de que Fagner tenha feito uma descuidada citação intertextual. Conta a seu favor o fato de que, no caso de "Canteiros", há uma outra referência poética a autor muito conhecido, o também cearense Belchior, cujos versos de "Hora do Almoço" são reproduzidos, explícita e assumidamente, por Raimundo Fagner.   
 *O título da coluna constitui subtítulo do livro.
 
 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Intertexto: um breve olhar

No auge do Cinema Novo, o cineasta François Truffaut afirmou: "Todos os grandes filmes já foram feitos". Em palavras miúdas, o realizador de "Os Incompreendidos" evidenciava que, à certa altura, nada seria absolutamente original em termos cinematográficos, ou seja, todo e qualquer filme, sob algum aspecto, daria a ver influências recebidas de outros filmes marcantes da história do cinema: a recorrência de um tema, uma perspectiva de análise, um enquadramento, um movimento de câmera, as estratégias narrativas do "texto" cinematográfico, portanto, ecoariam realizações já conhecidas, absorvidas como verdadeiros modelos a serem seguidos.
A história da sétima arte confirmaria as palavras do cineasta francês. Assim, tornou-se comum no cinema o que se convencionou chamar, a partir da semiótica, de intertextualidade*, e filmes se notabilizaram por citar outros filmes, não raro explorando fragmentos de realizações cinematográficas anteriores. Um tipo de reconhecimento autoral, muitas vezes constituindo homenagens memoráveis a autores notáveis, a exemplo de John Ford, Fellini, Kurosawa, Rossellini, Bergman e tantos outros gênios do cinema, cujas obras ficariam gravadas no imaginário do espectador.
Na falta de melhor expressão, passou-se a falar de "filme dentro do filme", como a explicitar a intencionalidade do realizador: exaltar seus mestres, dos quais terá herdado o jeito de fazer cinema, de lançar mão dos recursos de linguagem de uma arte nascida da soma de outras artes, quer na perspectiva da forma, do plano da expressão, quer na perspectiva do conteúdo. Isso, por dever de justiça, jamais seria considerado, pelo menos entre os especialistas ou mesmo do simples cinéfilo mais familiarizado com esta arte fascinante, como plágio, ou seja, imitação ilícita de uma obra pré-existente e protegida pela lei autoral.
A intertextualidade ocorre sempre que um "texto" (no caso, o texto cinematográfico) é citado por outro texto, num tipo de diálogo com textos já existentes. Importante destacar, por oportuno, que esse fenômeno ocorre em relação a diferentes tipos de texto: verbais, não verbais e mistos, a exemplo do cinema. Toma-se o texto aqui, claro, em sentido amplo: um poema, um romance, uma notícia de jornal, uma propaganda, uma tela, uma música etc., são textos, mesmo que estruturados em linguagens distintas.
Na música popular brasileira, por exemplo, o fenômeno se faz presente em grandes clássicos, verdadeiras obras-primas do cancioneiro musical. Caetano Veloso, para ficar num exemplo, reconhecido compositor, letrista e intérprete, nome de inquestionável correção profissional, usa e abusa do recurso: "Você diz a verdade, e a verdade é seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir". Os versos, belíssimos, da música "Dom de Iludir" reeditam um clássico de Noel Rosa e Vadico: "Pra que mentir, se tu ainda não tens esse dom de saber iludir? Pra que mentir, se tu não tens ainda a malícia de toda mulher?".
Em "Sampa", outro clássico de sua autoria, Caetano Veloso faz referência explícita a "Ronda", de Paulo Vanzolini. Em "Terra", homenageando o conterrâneo Dorival Caymmi, reproduz versos de "Você já foi à Bahia?": "Na sacada dos sobrados, da velha São Salvador, há lembranças de Donzelas do tempo do Imperador. Tudo, tudo, na Bahia faz a gente querer bem. A Bahia tem um jeito...".
São inúmeras as composições em que Caetano Veloso cita versos conhecidos de autores consagrados. Nada mais convincente, nesse sentido, que o estribilho do clássico carnavalesco "Frevo Novo", em que os versos "A praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião", notável adaptação de "A praça é do povo, como o céu é do condor", do poema "O povo no poder", do romântico Castro Alves. Aqui, a revelar a sensibilidade estética de Caetano Veloso, o próprio espírito do poema original é resgatado, numa exaltação festiva do libertário poeta da terceira fase do Romantismo brasileiro, cantado a plenos pulmões nas ruas de Salvador durante o Carnaval.
A propósito, acabo de ler um livro extraordinário sobre o tema: "Você diz que o meu samba é plágio", de Juca Novaes e Rodrigo Moraes, Salvador EDUFBA, 2025. Trata-se de um trabalho incontornável sobre plágio, tema delicadíssimo em tempos de Inteligência Artificial. Recomendo-o com entusiasmo.
E voltarei ao tema depois. 
*São conhecidos, mais vulgarmente, sete tipos de intertextualidade: alusão ou referência, citação, paráfrase, epígrafe, bricolagem, paródia e tradução.
 
 
 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Louvação ao poeta amigo

"O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente", são os versos iniciais do poema Autopsicografia, do poeta português Fernando Pessoa. É com eles que abro a coluna de hoje, singela louvação a Cícero Braz de Almeida.
O meio da semana em Fortaleza foi marcado, no campo da literatura, pelo lançamento do livro "Porta Estreita", de Cícero Braz de Almeida. O local não poderia ter sido melhor, o salão de eventos do novo "Docentes & Decentes", leve-se em conta que o nome do recém-inaugurado restaurante remete a uma história de boemia que lembra, por exemplo, os velhos tempos do "Cais Bar" e do "Estoril", cenários da melhor e mais notável convivência de artistas cearenses.
A exemplo dos dois aclamados epicentros de noites inesquecíveis, o "Docentes & Decentes" traz à memória tempos que entraram na história de nossa cultura popular.
Cenário de grandes festas da literatura, da boa convivência e do repertório musical mais refinado, lá, por certo, Cícero Braz terá gestado em sua alma prolífica muito do que agora publica no seu belíssimo e mais novo trabalho, objeto da entusiástica recepção por parte de estudiosos da literatura, escritores, músicos, cantores, compositores e, o que é mais importante, conforme destacou em seu rápido e comovente depoimento, amigos que Braz conquistou do alto de seu notável carisma como pessoa humana coberta de luz.
Tenho pela arte de Cícero Braz de Almeida uma particular admiração. Trata-se de artista de múltiplas habilidades: letrista, poeta, prosador, instrumentista e intérprete de reconhecido talento, por cujas searas trafega com igual segurança e apurado gosto estético.
Agora, com o livro "Porta Estreita", aposta num arco literário mais exigente (a literatura "livresca" propriamente dita), posto que, no plano do conteúdo, a coletânea reedita temas conhecidos de sua trajetória como compositor e intérprete
É no plano da expressão, portanto, que se pode perceber no livro suas incursões mais elaboradas, o jeito pessoal de construir o poema. Explico melhor: Por ser músico, e dos bons, sua poesia dá a ver um domínio de linguagem musical extremamente sedutor, colocando-se muito acima da dimensão meramente semântica do texto, mesmo quando, de modo consciente, opta por descumprir padrões de versificação tradicionais.
É, portanto, a força musical que sobressai, e o poema derrama-se em melodiosa experiência sonora, sob cuja matéria impera um rigoroso senso de medida, em que pese alguma irregularidade do estilo, revelando o criador cônscio de suas potencialidades e contenções --- estas, próprias daqueles que não se atiram a aventuras enquanto escritores; aquelas, muito maiores e mais frequentes no conjunto de sua produção e de suas inquietações artísticas.
Como já disse em comentário a outro de seus livros, Cícero Braz não é apenas um artista versátil e eclético, desses que surgem vez e outra nos meios literários. Se o artista faz bem tudo o que faz artisticamente falando, a pessoa humana é singular, um tipo de que andam carentes os tempos de hoje.
Isso para não descer a curiosidades, como o fato de ser ele um notável conhecedor da música popular brasileira, capaz de, com sua memória prodigiosa, ao primeiro acorde, para além de identificar a música, dizer quem a compôs, e, não raro, em que circunstâncias o fez.
Sob este aspecto, é aula escutar o que tem sempre a dizer sobre os bastidores da MPB, os encontros e desencontros de grandes nomes do cancioneiro popular, suas impensáveis excentricidades, seus mistérios íntimos mais inconfessáveis, suas intensas e mal resolvidas paixões, suas conquistas e seus fracassos mais comoventes. Aula e prazer sem nome, acrescento.
Numa noite de beleza radiante, para um contingente de boêmios e frequentadores históricos, como a renascer das cinzas, qual fênix, o novo "Docente & Decentes" foi palco de uma festa memorável, e a poesia de Cícero Braz objeto de sensibilizadora aclamação.