Sobre o Amor

Do poeta e cantor Cícero Braz vem a crítica pertinente: - "Você está batendo demais no Amor." Como entendesse a crítica desse leitor diferenciado como uma observação de que tenho sido redundante, acenei com a motivação de escrever sobre outros temas, ao que retrucou: - "Não, não é que esteja sendo redundante. É que tem açoitado impiedosamente o Amor." Ah, o Amor..., querido amigo. Acho mesmo que, na linha do que nos falou Cecília, a gente tem fases, como a lua. Você, que escreve, sabe o que estou querendo dizer. O Amor tem muitas faces, muitas fases, e acaba sendo inevitavelmente uma projeção daquilo que vivemos em dado momento de nossa vida. Mas com uma coisa você há de concordar: o final feliz é mesmo uma raridade. Não me ache negativista, que nem o outro poeta, sobre quem escrevi pela fobia que nutre da paixão. E por falar em paixão, uma das faces ou fases do Amor, que tal lembrar a etimologia da palavra para constatar que tenho alguma razão? Vem do latim tardio e significa sofrimento. Eis a razão por que se fala da Paixão de Cristo, ou seja, o martírio de Jesus Cristo, nome que se dá, também, à parte do Evangelho que narra o sofrimento de Cristo. Mas esteja tranquilo, poeta amigo, que vou afinar o cinzel com que serão vazados os novos textos sobre o Amor. O Amor feliz!

Acho mesmo, como disse em crônica recente, que o amor é felicidade, mas não é a felicidade, pelo menos quando se fala do amor Eros. Sei que mais uma vez estou pisando em terreno escorregadio, pois é outro desafio discutir ou tentar conceituar a felicidade. Vêm-me à cabeça a fala inesquecível de uma personagem do filme Desejos Proibidos, que revi outro dia em DVD. Um homem diz a sua mulher: - "A infelicidade é uma invenção." Ele se refere ao que considera uma determinação da mulher, ser infeliz. Existe mesmo quem, como Louise (como se chama a personagem), viva a infelicidade como uma escolha. No amor, contudo, não é raro que a infelicidade seja uma decorrência natural do desgaste que o tempo e as circunstâncias lhe impõem. Aliás, considero o filme de Max Ophuls um clássico sobre esse tema a um tempo tão simples e tão complicado.

O filme está ambientado na cidade de Viena, onde um homem desposa uma mulher extremamente bela e a presenteia com um par de brincos. É Louise, a tal inventora da infelicidade, que, para pagar uma dívida que a desespera, vende os tais brincos. Diz ao marido que os perdera. Mas o joalheiro leva o fato ao conhecimento do marido, que, agora, os adquire para dar de presente à amante. Esta, pelas mesmas dificuldades de Louise, vende-os ao mesmo joalheiro. O novo comprador, Donati, interpretado à perfeição por Vittorio De Sica, apaixona-se por Louise, com quem vem a manter um caso. Dá-lhe de mimo o mesmo par de brincos. A farsa amorosa, obviamente, é desvendada.

Para o bem ou para o mal, leitor amigo, o amor é cantado na literatura, no cinema, no teatro etc., como algo que tanto leva à felicidade quanto à infelicidade. São momentos diferentes da mesma história, que se repete através dos tempos com uma regularidade e uma lógica que me parecem inquestionáveis. No filme a que me refiro, os brincos valem como o lenço de Desdêmona, em Otelo, ou o broche da protagonista de Um corpo que cai. São símbolos dos muitos contratempos a que o amor está condenado. Na arte, como na vida. No amor, a felicidade e a infelicidade são as duas faces de uma mesma moeda. O que não significa que não valha a pena vivê-lo, sempre e intensamente.

Um comentário:

  1. O Amor, meu nobre amigo Álder, pode nos pregar trapaças, mas sempre existirá dentro de nós. Você tem essa convicção, evoca-a quando amando. Redundante, não. Eleja o carinho com o qual vc entronizará o verdadeiro amor que ainda não brotou no seu reino de paixão e de felicidade. Grande abraço.

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