Chove sobre o nosso amor

Aos namorados
Vejo na tevê mesa redonda sobre os motivos da separação entre casais, hoje. As razões, as de sempre. Imaturidade, o abismo entre o sonho e a realidade em seus muitos aspectos, infidelidade, ciúme etc. Um dos motivos apontados pelos debatedores aparece de forma evidenciada: as dificuldades financeiras. Este aspecto, que não raro é mesmo uma causa das crises que levam ao fim do relacionamento, contudo, a meu ver, ocorre via de regra como consequência do desgaste de outros sentimentos, a paixão à frente, que tudo passa.

Mas, indagará o leitor, o que estou mesmo querendo dizer com isso? Como se diz num modismo de linguagem irritante, "então!?": Quando existe maturidade, quando existem os bons valores por que deve se orientar uma relação saudável, companheirismo, bom humor e equilíbrio para enfrentar as adversidades, que fazem parte da vida de todo casal, a falta de dinheiro não é, em si, uma razão para fazer desmoronar o sonho da felicidade a dois. Ela, a falta de dinheiro, apenas faz aflorar com mais contundência outras dificuldades, que são aquelas já muito conhecidas e que levam, sim, à separação.

Não faz muito, pelo vidro do carro, enquanto o sinal abria, presenciei uma cena que me tocou fundo: um casal, que mora sob um viaduto aqui próximo, beijava-se à plena lua cheia, mal caía a noite de sexta-feira. A vida imitando a arte. A propósito, revendo a filmografia de Bergman, o gênio do cinema sueco, para quem o amor é invariavelmente o grande tema, dia desses assisti ao comovente Chove sobre o nosso amor, o segundo de sua vastíssima produção. Que coisa linda! A película é de uma simplicidade desconcertante, contudo profunda, intensa, um filme desses para se ver e rever através dos tempos. Narra a história de David, um ex-presidiário, e Maggi, uma interiorana entregue a sua própria sorte, num mundo de insensibilidade e egocentrismo.

David e Maggi encontram-se numa estação de trem numa tarde chuvosa. Apaixonam-se e decidem caminhar juntos, partilhar aquilo que possuem: a miséria e a solidão. Da experiência nasce um amor puro e doce, começa uma vida de dificuldades -- e de umas poucas conquistas. David consegue emprego, economiza parte do salário e compra uma pequena casa em que vivem felizes. Até que a especulação imobiliária, a ganância e a falta de escrúpulos, roubem dos dois o pouco que haviam construído juntos. O filme, é claro, termina com o casal perdido sob a força de um temporal, tal qual a cena de abertura em que se conheceram. A sequência final, com o casal caminhando de mãos dadas, sob a proteção de um guarda-chuva humilde, em direção ao desconhecido, é de uma força poética insuperável. Aos dois, apenas resta o amor, o que explica a beleza do título.




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