O abismo entre autor e obra

Li com entusiasmo o livro O vento do mar, do poeta e prosador Lêdo Ivo. Lançado há dois anos, só agora chega em nova edição às livrarias da cidade. Extremamente bem cuidado do ponto de vista editorial, o livro reúne textos críticos e memorialísticos, constituindo em seu conjunto um tipo de autobiografia bastante envolvente. Assim, entra-se em contato com a história pessoal e intelectual de um dos maiores vultos das letras nacionais -- e principal poeta da chamada Geração de 45, em que figuram personalidades importantes da grande literatura brasileira, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Ferreira Gullar.

Gostoso, pela leveza do texto e pelo tom poético que é mesmo uma marca da escritura de Lêdo Ivo, O vento do mar traz belíssimos ensaios sobre alguns dos principais escritores brasileiros, modernistas todos, com quem o autor privou de amizade estreita e com os quais conviveu em diferentes lugares, de Maceió, onde nasceu, ao Rio de Janeiro e a outras cidades mundo afora. Mas são os textos sobre Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Gracialiano Ramos que constituem o que há de mais interessante no livro. Sobre o autor de Vidas Secas, alagoano como Ivo, passa-se a conhecer um lado pouquíssimo conhecido de sua personalidade: o homem profundamente reacionário, política e esteticamente falando, rancoroso, ácido em suas críticas pessoais e incapaz de perdoar. Além de vaidoso e afeito a bajulações, desde que fosse ele o alvo da atenção.

Leio isso e ponho-me a pensar: não se pode mesmo misturar o autor e sua obra. Tem sido assim desde tempos remotos. Leonardo da Vinci, o maior gênio da Arte em todos os tempos, era um vaidoso doentio, incapaz, por exemplo, de suportar que outros gênios pudessem brilhar. Michelângelo foi alvo de sua perseguição, como está em qualquer bom manual de história da arte; Picasso arrancava os cabelos (que não tinha!) diante do sucesso de alguns pintores contemporâneos, a exemplo do que ocorreu a Modigliani. O mesmo que, por sua vez, levou ao desespero, que culminaria com o suicídio, grávida, a mulher Jeanne Hébuternne. Tal qual faria Picasso com as mulheres com as quais viveu. Tolstói, o incomparável romancista de Anna Karenina e Guerra e Paz, era também um marido autoritário e castrador. E por aí vai.

No livro de Lêdo Ivo, uma declaração atribuída a Gracialiano Ramos, a mim, que sou um admirador confesso de sua literatura de altíssimo nível estético, causou espécie: - "Para que liberdade de imprensa e de pensamento? Para o povo se envenenar com esses livros chinfrins, cheios de imoralidade e de erros de gramática?" Contradições à parte, vindas tais afirmações de um comunista, existem no livro revelações ainda mais graves, como uma em que Ivo insinua a prática de tortura ou coisas piores contra os moradores de rua de Palmeiras dos Índios, à época em que Graciliano Ramos foi prefeito da cidade. Inacreditável, sobremaneira em se tratando de um artista que nos legou uma obra imorredoura e profundamente humana.

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