Paul McCartney botou boneco

Quase me curvando ao peso de uma virose, fui ao Castelão levar minha filha ao show de Paul McCartney. Descontadas as quatro horas e meia de deslocamento (isto mesmo: quatro horas e meia para percorrer a distância de pouco mais de 20 quilômetros de onde moro até o Castelão!), para não falar da desorganização no entorno do estádio, os problemas de estacionamento mesmo para quem o pagara com antecedência e o fato de só poder estar em casa por volta de três da manhã, valeu! Valeu mesmo!
 
Do alto dos seus 72 anos de idade, o ex-beatle fez um show de encher os olhos, mesmo por que os efeitos visuais do espetáculo são um item à parte na produção de Out There, como denominou a sua turnê atual. Afora isso, o show impressiona mesmo é pela força da genialidade de Paul McCartney e pelo profissionalismo irretocável com que se apresenta aos seus fãs, levando-os invariavelmente ao delírio a cada canção.
 
Para muita gente, como eu, que só pode adentrar o estádio uns 15 ou 20 minutos depois de iniciado o show, foi emocionante deparar com o artista "executando" (a guitarra é por si só um concerto) o clássico All my loving. Vieram em seguida outros sucessos dos Beatles, como Eight days a week, Your mother should know e a impagável Lovely Rita, que, segundo fui informado pelos fãs mais atentos, jamais tocara antes de Out There em carreira solo.
 
Para quem é afeito às interações entre artistas e público, no que tem sido uma marca de suas apresentações no Brasil, não faltaram as referências  --  em português pelo menos compreensível  --  aos jargões da terra: "Vamos botar boneco", diz Paul McCartney mais de uma vez durante o espetáculo, ou "Vamos vazar", acompanhado do gesto tradicional com que, em bom cearensês, é costume se dizer em lugar de "vamos sair à francesa!"
 
Por essas e outras, Out There agrada a gregos e a troianos, mesmo para aqueles a quem o passar dos tempos foi capaz de embotar tanta coisa: diferentemente da minha filha Carol, que tem o seu inglês em dia, tentei, sem o conseguir, relembrar as letras de algumas das canções antológicas do velho Paul McCartney, a exemplo de We can work it out ou a soberba All together now . 
 
A essa altura do show, no entanto, o estádio por inteiro parecia afinado sob as cordas dos muitos violões e guitarras (Paul troca de instrumento sucessivas vezes) de que o ex-beatle tirava os acordes inconfundíveis de suas mais belas canções. Quando uma plataforma móvel ergue o astro às alturas, sozinho ao violão, a emoção que se sente é incomunicável. Se a expressão pode ter uma conotação positiva, nessa quinta-feira à noite, Paul McCartney botou boneco em Fortaleza. Show!
 
           

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