Grande Sertão: Veredas

Quando li o Grande Sertão: Veredas, lá pelos anos 70, mal entrara no curso de Letras da UFC, o livro causou-me um impacto tamanho que passei, à época, a citar de cor falas da personagem Riobaldo, algumas das quais me lembro até hoje: "Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa". "O senhor ache e não ache. Tudo é e não é". "Cavalo que ama o dono até respira do mesmo jeito".
Pérolas. 
"O espírito da gente é cavalo que escolhe estrada". "Quem desconfia fica sábio". "Medo, não. Mas perdi a vontade de ter coragem". "A morte é para os que morrem". "... quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade". "Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera". "Sertão é dentro da gente". "Um sentir é do sentente, mas o outro é do sentidor". "Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só fazer outras maiores perguntas".
O livro faz, em 2016, sessenta anos. Sozinho, sem carecer de citar Corpo de Baile, outra obra-prima, já justifica considerar-se Guimarães Rosa o segundo maior escritor brasileiro de todos os tempos. O outro, claro, é Machado de Assis, seguidos os dois por Graciliano Ramos.
Enfeitiçado pela força de Guimarães Rosa é que fui mais de uma vez ao sertão mineiro na esperança de entrevistar Manuelzão, um dos vaqueiros da expedição que tinha à frente o escritor mineiro, e da qual extrairia ele a matéria bruta de que resultaria um dos clássicos da língua portuguesa. Manuelzão, morto em 1997, já recusava visitas e não me recebeu, para a frustração chorosa deste colunista. Menos mal, que em Cordisburgo, onde nasceu Rosa, deparei com outra personagem importante do escritor, Juca Palmeira, do sublime O Burrinho Pedrês. Mas é para o Grande Sertão que volto a minha atenção enquanto escrevo a coluna de hoje.
Livro difícil, é verdade, para quem não tem o coração aberto de todo para os segredos da grande literatura. Lê-lo bem, percorrendo o bioma que lhe serve de cenário, veredas e buritis, com habilidade, é mesmo um desafio. Mas é na complexidade da alma humana que reside o que há de mais belo e mais profundo na prosa rosiana, pelo que constitui o romance, de todo, uma experiência incomunicável. É preciso ler o livro para entender o que digo.
Não bastasse ser um construto de linguagem absolutamente genial, na linha do irlandês James Joyce, autor do Ulysses, o livro de Guimarães Rosa nos reserva surpresas, surpresas que se renovam a cada retorno ao texto, a exemplo do que fiz por esses dias por provocação dos 60 anos de sua publicação.
Escrito em primeira pessoa, narra as peripécias de Riobaldo, sua vida como jagunço (capangas de fazendeiros ou justiceiros do sertão), sua trajetória marcada por percalços e, elemento central, uma paixão proibida por Diadorim, outro jagunço, e que constitui o que há de mais belo nessa narrativa perpassada de neologismos (palavras inventadas), regionalismos, arcaísmos e termos tomados por "empréstimo" de outras línguas. Tudo isso, ressalte-se, num estilo sem par na prosa de ficção brasileira ou de qualquer país.
Riobaldo dirige-se a um interlocutor "ausente", recurso responsável pela inserção do leitor no corpo da história, um emaranhado de situações em que não raro se perderá, mas que, experiência concretizada, jamais será esquecida. É que, tão aparentemente localizado, no sertão de Minas Gerais, a obra salta para o universal num piscar de olhos, posto que é a condição humana o que sobressai como elemento de análise e constitui, de fato, o seu eixo dramático. Poético e metafísico, pontuado de reflexões acerca do sentido da existência, da morte, da religião, da justiça, da vontade e das convenções que a silenciam, Grande Sertão: Veredas é livro que engrandece este Brasil de tantas e tantas contradições. Recomendo.
 
 
 
 
           

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