Encantador

 

                                                    Por Álder Teixeira

Je suis enchanté é expressão recorrente entre os franceses para dizer de sua profunda admiração com alguma coisa. É o que me ocorre depois de assistir aos três primeiro filmes do Festival Varilux do Cinema Francês, que teve início nessa quinta-feira 8 e terminará a 21 do corrente. Pela ordem, vi O Filho Uruguaio, Perdidos em Paris e Rodin.

O primeiro, de Olivier Peyon, objeto da presente análise, tem como escopo temático a tentativa de resgate de um filho sequestrado pelo pai há cinco anos.

Nada novo, como se vê, não fosse o filme extremamente bem elaborado em todos os seus aspectos formais, da decupagem ao estilizado manuseio da câmera, um dos procedimentos capazes de envolver o espectador desde as primeiras tomadas do belo filme que é despretensioso O Filho Uruguaio.

Diga-se em tempo, todavia, que não se trata de uma narrativa sofisticada, tomando-se o termo como rebuscado ou excessivamente requintado em sua construção discursiva, ou seja, artificial ou afetado. Antes pelo contrário, o registro é naturalista e os enquadramentos, por exemplo, obedecem ao que a gramática cinematográfica estabelece como convenção. Isso se presta ao que refiro como "estilizado": os traços de linguagem foram aprimorados por Olivier Peyon no sentido de dar ao filme uma elegância formal digna de nota.

A cena final, em que mãe e filho se aproximam num parque infantil  ---   e se abre, com isso, a sugestão de um reencontro definitivo, é sublime. As angulações da câmera e a suavidade de seus movimentos, enquanto mãe e filho se miram como animais desconfiados, paga o ingresso, não sem nos roubar algum ar dos pulmões.

Voltemos ao roteiro, contudo. A mãe, no caso, é Sylvie (Isabelle Carré), que volta à Florida, cidade uruguaia em que Felipe, o filho roubado, mora com a tia, Maria (Maria Dupláa), e a avó (Virginia Méndez), na companhia de um assistente social, Mehdi, personagem que ganha protagonismo na história antes de tudo pelo belo trabalho de ator levado a efeito por Ramzy Bedia. A direção de elenco, por sinal, é algo notável em O Filho Uruguaio, numa rara junção de sensibilidade e apuro técnico do começo ao fim do filme. Isabelle Carré, tal qual Dupláa, está sublime.

Um aspecto, todavia, merece realce como prova de que estamos diante de um grande filme: a trama se desenvolve com um nível de complexidade que tira o filme de Olivier Peyon da vala comum de tantos outros que abordaram o mesmo tema (e que pecam pela obviedade das soluções narrativas), pois os questionamentos em torno do núcleo central não esgotam a força dramática que sustenta O Filho Uruguaio. É que Peyon explora com acuidade e competência os muitos elementos secundários do enredo, bem na linha do que, sutilmente, faz-nos perceber no suposto envolvimento sentimental de Mehdi e Maria. Apenas uma hipótese, claro.

É encantador, portanto, que uma obra tão despojada, tão assumidamente simples, não resulte banal ou inclinada a professar julgamentos. O filme é denso, bem construído e aberto, na perspectiva que imortalizou a classificação o italiano Umberto Eco. Ao sair do cinema, o espectador não leva consigo uma tese, mas se sente provocado a pensar sobre um problema a um só tempo avassalador e simples. Vale conferir.

  • Professor de Estética do Cinema, Mestre em Literatura e Doutor em Artes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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