A tragédia e a benevolência do homem

Na última crônica do ano, enquanto fazia um balanço do que fora 2010, desejava aos leitores, entre outras coisas, que a natureza fosse mais generosa com os brasileiros em 2011. Na contramão das minhas expectativas, no entanto, acompanho pela TV as cenas aterradoras da tragédia que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro desde a madrugada de quarta-feira 12, e que resulta, por enquanto, em quase 800 vidas ceifadas. Uma catástrofe que coloca o Brasil entre os dez países mais gravemente afetados pelas calamidades naturais em todos os tempos.

São imagens de dor, sofrimento, desespero. Cenas dantescas, casas, carros, pessoas sendo arrastadas pela fúria das águas. Declarações chocantes, como a do contador Luiz Otávio de Souza, 39 anos: - "Até agora só consegui encontrar um homem morto e resgatei o braço de uma criança." Souza empenhava-se em encontrar os corpos de tios e primas, soterrados pelos escombros do que fora o edifício em que moravam em Nova Friburgo. A paisagem é terrificante. Os depoimentos deixam os nossos corações apertados. Difícil conter as lágrimas diante de tanto padecimento, da angústia insuportável de pessoas que, estranhas e distantes, como que se tornam próximas na agonia de um instante.

E a vida imita a Arte.

O riacho que atravessa São José do Rio Preto, cenário em que se inspirara Tom Jobim para compor Águas de Março, sua mais célebre criação, transforma-se em descomunal avalanche, capaz de arrastar casas, pedras, paus, pontes, vidas. Fim do caminho, diz um verso da composição. Gravadas pelo neto Daniel, também músico de carreira promissora, a televisão mostra as imagens da casa dos seus avós desmanchando-se sobre as águas barrentas, inelutáveis, inclementes.

Dialeticamente, contudo, a tragédia tem revelado dois lados de significados claramente distinguíveis. O primeiro, já em parte mostrado acima. O segundo, a revelação da incontrastável generosidade humana. A solidariedade que move pessoas não raro vitimadas pela mesma catástrofe, pessoas que tiveram suas casas destroçadas, que perderam familiares queridos, que trazem no corpo as marcas do desastre. Feridas que ainda sangram e Humanismo que se mostra, a um tempo, na consciência das limitações humanas, na aceitação resignada da dor - e na insistência do amor ao próximo, brotando dos destroços como forma de projetar na adversidade a benevolência do homem.

Um comentário:

  1. Meu querido escritor. Lendo essas últimas crôncias, acuso com que propriedade a frase "a vida imita a arte" caiu-lhe tão bem nas suas assertivas. Águas de Março consegue usar uma enxurrada de metáforas num texto fático sem lhe perder a graça e plenitude. Em Gita, Paulo Coelho mesclou metáforas e metonímias com igual jaez. Permito-me ver o sentido do renovar-se nos seus textos e pedir permissão para fundí-lo num conceito só: a renovação das atitudes humanas. Em João, o renovar-se da amizade pura, sincera e, no Rio, o da solidariedade. Ao meu ver, ambos se confundem com águas, de chuva e de lágrimas e nos remetem aos nossos mais primitivos sentimentos, entanto, os mais verdadeiros. Como sempre, apraz-me ler seus textos. Grande Abraço.

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