De volta ao passado

Com relação a 12 anos de escravidão, o ganhador do Oscar 2014, ocorreu-me o contrário do que é comum em termos de adaptação: o filme me levou a ler o livro que lhe deu origem, de Solomon Northup, cuja primeira edição é de 1853 e só agora chega ao Brasil em tradução de Caroline Chang. Para quem não viu o filme, trata-se do relato autobiográfico de um cidadão americano sequestrado em 1841 e resgatado doze anos depois de uma propriedade algodoeira nas proximidades do rio Vermelho, Louisiana.
 
Considerando-se que se trata de duas linguagens estéticas, o que torna uma tolice estabelecer comparações do tipo "gostei mais do livro" ou vice-versa, tomo o cuidado de não incorrer em julgamentos que ponham por terra o meu encanto com as duas obras. Explico-me: o livro de Northup, não bastasse o fato de representar um depoimento de quem sofreu na carne sofrimentos só comparáveis "às agonias flamejantes do inferno", o que já o credencia, quando menos, pela autenticidade de sua narrativa, é vazado numa linguagem elegante e estilizada, capaz de prender o leitor e de mantê-lo sob o domínio de uma emoção entre poética e revoltada.
 
Aí, por sinal, reside o ponto alto de ambos, o filme e o livro que lhe deu origem, pois, na contramão do que é recorrente nas narrativas clássicas, nenhum deles conduz o público pela mão, mantendo-o a uma certa distância do fulcro dramático da obra, o que, nesse caso, acabaria por abrandar um pouco da sua densidade. Não, livro e filme são capazes em igual medida e com quase a mesma qualidade estética (o filme é soberbo sob este aspecto) de nos inserir na tessitura do conflito, de despertar em nós, até onde é cabível afirmá-lo, a mesma surpresa diante de tanta brutalidade, algo que nos horroriza e revolta. Não à toa, pois, é que vi, no cinema, um pouco à minha frente, um homem negro ir à lágrimas, silenciosas, educadas, mas suficientes para traduzir a sua indignação diante da realidade retratada na tela. Indignação que sentimos todos, independentemente da questão racial.
 
No caso de Steve McQueen, o cineasta afro-americano que dirige 12 anos de escravidão com a mão segura e sensível de um cineasta sublime, parece-me se dá o que conhecemos em termos estéticos pelo nome de autofiction, termo com que Serge Doubrovsky classifica um tipo de autoescrita em que ocorre uma equivalência entre autor e narrador a fim de esconder aspectos autorretratados. Não que a história do filme, claro, diga respeito a sua vida pessoal. Mas McQueen, sabe-se, é um artista engajado politicamente, notadamente em tudo que tiver com a questão racial qualquer relação, o que conferiu ao filme um tratamento extremamente expressivo dos seus elementos formais.
 
A paleta de cor, a direção de atores, o tom intencionalmente contrastante de algumas imagens nos planos (há cenas que contrapõem a violência praticada contra os escravos a um fundo de quadro estonteante do ponto de vista plástico), o ritmo da narrativa e a música de fundo, para não falar daquela que, fazendo parte da história, emana do violino de Northup, em meio a um silêncio opressivo, tudo no filme é irretocável esteticamente falando.
 
Steve McQueen, com 12 anos de escravidão, ergueu o seu mais indignado e universal protesto, o mesmo de que se originaram, por certo, as lágrimas do espectador a que me referi há pouco. À feição de um Guevara, no que respeita às questões sociais mais amplas, o filme de McQueen, como o livro que acaba de chegar ao país, parece nos dizer: onde quer que um negro seja objeto de maus-tratos, toda a humanidade estará sendo humilhada no mesmo instante.
 
A grande arte é capaz de ressignificar-se, atualizando-se. Talvez por isso, fugindo ao que é comum nas narrativas do gênero, que retratam o negro da escravidão à liberdade, a história de Northup percorra uma trajetória inversa, e vá da liberdade à escravidão. Qualquer relação com fatos ocorridos ultimamente nos estádios brasileiros, por exemplo, não será, pois, mera coincidência. Estamos de volta ao passado.
 
 
 
 
 
 
 
 
            
           

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