Masturbação de cinéfilo

Durante uma aula de Estética do Cinema, aluna levanta a questão: "Qual a frase de filme que mais lhe marcou?" Sinto que a curiosidade dissemina-se por toda a turma, atenta ao natural titubeio do professor. Lanço mão da memória (ainda prodigiosa para as coisas da arte) e reproduzo a fala de Rick (Humphrey  Bogart) para Ilsa (Ingrid Bergman), na cena final de Casablanca: "Nós sempre teremos Paris".
 
É que nunca se disse tanto, com tão pouco, sobre aquilo que tempo algum será capaz de apagar no coração de um amante: a recordação dos momentos felizes vividos a dois.
 
Pontuada de sugestão, a frase dá a ver que Rick e Ilsa ainda se amam, mas o melhor, nas circunstâncias em que se encontram, é seguir cada um o seu caminho. Fica a esperança, tênue que seja, de que possam um dia ouvir juntos, de novo, As time goes by, como nos tempos da capital francesa. Tudo marcado pelo ritmo sensível da cena, pelo clima de suspense que envolve a despedida dos amantes. Na troca de olhares, na cumplicidade de uma mesma emoção, na vontade incontida de voltarem a viver juntos, percebe-se  muito mais que adeuses,  percebe-se que, para o sem-fim dos tempos, o amor permanecerá encravado em seus corações.
 
A magia do cinema.
 
Fantástica fábrica de sonhos, um grande filme é capaz de operar milagres, de reeditar sentimentos profundos com sua encantadora mistura de cores, sons, músicas, palavras que ficarão para sempre, que marcam as nossas vidas e entram para a história.
 
Levado pela provocação, reproduzo de cor algumas outras frases inesquecíveis, para o delírio dos alunos, já contaminados com o "micróbio" da paixão pelo cinema. Como esquecer a melancólica afirmação "A felicidade é triste", do filme O Prazer, de Max Ophuls? Ou a desconcertante "Só há um tipo de amor que não dura: o não correspondido!", proferida por Jodie Foster, em Neblina e Sombras, de Woody Allen? Que dizer da poética declaração "Eu achei a eternidade. É o sol misturado com o mar", De Leonardo DiCaprio, em Eclipse de uma Paixão?
 
É que nos vemos, em alguma medida, na beleza de uma cena, na frase de um personagem, na poesia de uma imagem dos grandes filmes. Afinal, "Melhor passar para o outro mundo na glória de uma paixão que murchar melancolicamente com a idade", diz Donald Mac Cann, alimentando nossas convicções em Os Vivos e os Mortos, último filme de John Huston.
 
Por fim, que o tempo da aula terminava, descontraio-os com a impagável assertiva de Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa: "Não zombe de masturbação. É sexo com alguém que amo!"
 
 
 
 
 
 
 

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