Mas como dói

Um amigo que morre é um pedacinho da gente que se vai. Alguns partem tão depressa (e de forma tão inesperada) que lembram aqueles que saem à francesa, deixando, à mesa do happy hour, os amigos curiosos: "O que houve, para onde ele foi?" Com Roberto Bezerra aconteceu assim. Partiu. E sua morte me trouxe, além da dor da perda de um amigo adorado, a inusitada oportunidade de uma reflexão. O que é a morte?
 
Ernest Becker escreveu em Negação da Morte que andamos tão cheios de realidade, tão entregues às obrigações do cotidiano, que nos tornamos incapazes de compreender as coisas básicas da vida, de pensar sobre elas, de aceitá-las em suas certezas inexoráveis, a morte por exemplo.
 
Como o título do livro deixa a ver, sua tese constitui uma reflexão sobre o fato de que, no que diz respeito à morte, essa incapacidade de pensar é antes uma conveniência. Ignoramos aquilo que, sendo inevitável, perturba, desorganiza emocionalmente cada um de nós.
 
Robert Solomon, no maravilhoso O Prazer da Filosofia, observa que é próprio do pensamento contemporâneo querer adiar a morte. Por isso paramos de fumar, fazemos caminhadas matinais, checkups periódicos, sonhamos chegar aos 90, 100 anos. Se adiar a morte é positivo (e deve ser mesmo um objetivo na vida de cada um), negar a morte é negativo, sem trocadilhos   --  e por isso morremos um pouco quando morrem as pessoas que amamos.
 
Se isso via de regra ocorre aos ocidentais, a coisa assume proporções enormes em se tratando dos povos latinos. Fugimos léguas quando o assunto é pensar sobre o tema. É como se, recusando-nos a fazê-lo, pudéssemos criar uma barreira entre nós e a 'indesejada das gentes', valendo-me do feliz eufemismo de Manuel Bandeira. Aquele que dizia que todos os dias o aeroporto em frente de sua casa dava lições de partida.
 
Por isso, que bom se dedicássemos um pouquinho de nossas vidas a tentar lidar melhor com a morte, isto é, com a consciência tantas vezes empurrada para os lados de que esta talvez seja a única certeza possível: todos, cedo ou tarde, vamos morrer. Não estou, com isso, incorrendo num tipo de fetichismo doentio e obsessivo, na linha do que fizeram os poetas da segunda geração romântica, num fenômeno que se tornaria conhecido como o Mal do Século.
 
Os egípcios pensam a morte, fizeram-no sempre, a exemplo do que testemunha a sua arte composta de referências à vida depois da morte. Platão, pela voz de Sócrates, aponta para a imortalidade da alma, antecipando uma 'convicção' cristã. Os índios o fazem, de que resulta uma das cerimônias de adeus mais bonitas de que se tem conhecimento, o Quarup.
 
Heidegger, o filósofo alemão, defende a tese inquietante de que a nossa existência é a de um ser-para-a-morte, tal como o fez, num tempo distante, Boécio, para quem a essência da filosofia é a "sua" transcendência, quer dizer, o para além da morte. Nietzsche nos adverte de que a beleza da cultura grega reside, antes de tudo, na aceitação fatalista da morte, de cuja anuência legaram-nos os trágicos helênicos obras imorredouras.
 
Solomon, o escritor americano a que me referi há pouco, faz no seu livro uma afirmação que considero fundamental: "Negar a morte é acreditar que isso não vai acontecer conosco". Para ele, bem na perspectiva do que afirmara Becker, "em sua estratégia mais mundana, mais generalizada, negar a morte é concentrar-se no alvoroço do mundo cotidiano e nem sequer levantar os olhos para o horizonte". Em decorrência, não nos dedicamos às pequenas coisas que, vai ver de perto, fazem a diferença.
 
Sem encarar a morte como um fetiche, pois, mas sem jamais tentar em vão negar a sua "realidade", conforme aponta o autor desse extraordinário livro que é o Prazer da Filosofia, de que destaco os inúmeros capítulos dedicados ao tema, é tempo de encarar a questão de frente, de vencer o medo e de tentar compreender melhor "o que é importante na morte e o que se deve pensar a seu respeito".
 
A morte prematura desse amigo querido, que foi Roberto Bezerra, assim, instantaneamente, sem deixar recados, parece no entanto nos ter deixado uma lição. A morte é um fato em meio a muitos outros, como nascer, crescer, viver... Mas como dói.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

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