Teatro, farsa e realidade

Durante festa da colônia iguatuense em Fortaleza, sábado 31, conterrâneo me informa a inauguração do Teatro Pedro Lima Verde. Entre feliz e surpreso - sequer um convite recebi da Secretaria de Cultura do município -, lembro-lhe que a Lei que homenageia Pedrinho é de minha autoria e foi apresentada em projeto à época do meu segundo mandato como vereador. Recordo que tive de tirar leite de pedra para sensibilizar os edis iguatuenses, que, em sua maioria pouco afeitos à atividade cultural, desconheciam quem era Pedro Lima Verde. O teatro seria denominado Luiz Gonzaga. Na defesa do projeto, por escrito e em discurso na tribuna, passei em exame a trajetória desse jovem que por certo viria a brilhar no grande teatro brasileiro (e no cinema!), não morresse tão prematuramente.

Dele, contudo, ficaram passagens marcantes em diferentes montagens do palco e, quando menos, duas películas em que faz ver o seu inegável talento. Lamento não ter podido ir à solenidade de inauguração, embora autor da iniciativa em homenagem a Pedro Lima Verde e professor do mais importante curso de teatro do estado. São os rancores da província fazendo-se ouvir aqui e além, por força do estilo ultrapassado de conduzir a coisa pública. Fazer o quê? De resto, guardo com carinho a cartinha de agradecimento que me escreveu dona Barreirinha, mãe e maior fã do homenageado, o que, para mim, tem muito maior significado. Diga-se em tempo!

O fato reacende uma saudade sem nome de Pedrinho, amigo com quem privei conversas inesquecíveis sobre literatura, teatro, cinema e “causos” de Iguatu, matéria que despertava nele a maior curiosidade (e gargalhadas que tenho guardadas na memória, passados tantos anos desde a última viagem desse grande artista). Que o palco do teatro recém-inaugurado revele gente boa como Pedro Lima Verde, na perspectiva da arte e da condição humana. E que a tacanhez não deite raízes em seu cenário. E a farsa seja apenas aquilo que sabemos dela: uma das duas principais raízes de que se originou o teatro.

Na política, a farsa é outra coisa. Talvez a víscera de que depende o sucesso de muitos que, aqui e acolá, ocupam cargos importantes. Esses, cedo ou tarde, ainda que contra a sua vontade, tiram a máscara ou a deixam acidentalmente cair. No palco, a farsa é alegria e emoção, na vida é desfaçatez. No palco é a mentira que torna belo o espetáculo, mas na vida não. Conta Kierkegaard que em um circo ocorreu um grande incêndio e ao palhaço coube avisar o fato ao público, que não acreditou na verdade e morreu queimado. É que não se vai ao circo, ao cinema ou ao teatro em busca da verdade como valor em si. É à vida real que isso interessa. Lembra Gasset, o filósofo espanhol, que ao teatro o essencial é “fazer-nos ir a ele”, isto é, sair de casa, sair do real para o encontro com o irreal. No teatro, os atores são farsantes, e nós, o público, farseados. Mas isso, ressalte-se, no teatro. Na vida, não!

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