As Intermitências da Morte

Num dos seus mais ‘deliciosos’ livros, As Intermitências da Morte, José Saramago narra uma história curiosa: num país não-identificado, a partir do momento em que se festeja a entrada de um novo ano, todas as pessoas simplesmente perdem a condição de mortais, inclusive a rainha, que parecia dar seus últimos suspiros. A primeira repercussão, claro, é das mais eufóricas. Tudo que se pensava impossível de tão maravilhoso que é. Com o passar dos dias, no entanto, começam a surgir os primeiros problemas, as primeiras insatisfações. A Igreja depara com uma queda crescente do número de fiéis, afinal, perde completa validade a noção de céu, inferno, paraíso, ressurreição. Os hospitais, uma vez que os moribundos não morrem mais, passam a ficar entupidos de vivos-mortos, o que implica em problemas inimagináveis. E os donos de funerárias e seguradoras vêem-se diante de uma crise jamais esperada. É o caos deixar de existir a morte.

O livro é de 2005 e expõe, com a genialidade costumeira do ficcionista português, uma situação a um tempo crítica e hilária. É do que me lembro quando, entre amigos, vem à tona o quadro que se estabelece com a polêmica Lei Seca. As opiniões são as mais desencontradas, em que pese a queda significativa de acidentes de trânsito e de demanda hospitalar nas emergências. Fala-se de tudo, tolices inomináveis, argumentos sem pé-nem-cabeça: que é um absurdo medir a responsabilidade de uns pela irresponsabilidade dos outros, que a medida é intolerante etc. E, principalmente, fala-se que os bares e restaurantes tendem a deparar com dificuldades insuperáveis e que será grande a quebradeira, sem esquecer do crescimento dos índices de desemprego entre garçons, cozinheiros, serviçais etc. Um caos, beber e não poder dirigir.

A excêntrica tessitura do romance de Saramago, todavia, serve para expor o lado torto da vida em sociedade: casos de extorsão, os interesses individualistas, a sede do lucro a qualquer preço, a ignorância do mínimo senso da ética, o desamor pelo próximo, a corrupção, enfim, a inversão dos valores essenciais da existência. Coisas que devem, ou deveriam, fazer refletir sobre os outros e sobre nós mesmos. Como em todo quadro de crise, também no livro buscam-se alternativas as mais curiosas, como no caso das funerárias e seguradoras. Aqui vem mais um contraponto entre uma situação e outra: em face das implicações advindas da proibição de beber e dirigir, bares estão disponibilizando motoristas para os bebuns; táxis, ao preço de dez reais, lançam mão de seus recursos de comunicação para identificar pontos de blitz e ‘proteger’ os interessados contra punições previstas para motoristas alcoolizados etc. Uma criatividade bem brasileira, que põe a nu as nossas fragilidades morais e a falta de vocação para a seriedade em suas muitas faces.

No capítulo 7 do romance, a morte encaminha a uma emissora de televisão a notícia do seu retorno: ‘a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios [...] ofereci uma pequena mostra do que seria para eles viver para sempre [...] a partir de agora toda a gente será prevenida por igual e terá o prazo de uma semana para por em prática o que ainda lhe resta na vida.’ Cada um, decorrido o exíguo tempo de vida, receberá uma carta anunciando a chegada da “indesejada das gentes”, para lembrar aqui o eufemismo clássico de Manuel Bandeira. Não vou contar o final do belo romance de Saramago para despertar no leitor, se ainda não o fez, a vontade de ler As Intermitências da Morte. Cá comigo, francamente, como se trata do Brasil, receio que a falta de bom senso dos nossos boêmios contribua para a mudança da Lei. E que, a partir de qualquer dessas próximas meias-noites, muito gente volte naturalmente a morrer. O que é pior: sem aviso prévio.

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