A paixão e a descrença

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Tenho um amigo que afirma não acreditar no amor. Teve uma desilusão há muitos anos e não consegue superar o troço. Vira e mexe, começa um novo relacionamento e não passa dos dois meses. Logo se desentende, e o que parecia ser, finalmente, um recomeço, termina em frustração. Dele e nossa, dos amigos com os quais convive. E não pense que se trata de um babaca, muito pelo contrário. Para tudo o mais, é o cara: inteligente, sensível, bem-humorado sempre e, se não é Tom Cruise, não é tão mal apanhado. Escreve, toca um violão belíssimo, compõe e, à mesa, rouba a cena, com o papo agradável e as piadas que levam todos a mais aberta gargalhada. É o cara, já disse. Mas, quando o assunto é paixão, amor, trava: - "Tô fora!", diz sempre.

Fico imaginando o que leva alguém a descrer, assim, do amor - ou de qualquer outro sentimento que dele se aproxime. Impressiona-me que um homem tão novo, ainda, se deixe entregar a tal negativismo, num tempo de tanta oferta e tanta procura. O que pode justificar a pessoa pensar assim?: - "Sofri demais, tô fora!"
Dia desses, indagando-lhe a razão por que se sente assim, sequer titubeou: - "Não tenho mais idade para me apaixonar!" (sic), acredite. Como se a paixão exigisse comprovação de idade, uma classificação etária ao contrário: Imprópria para maiores de 30 anos.

Como lembra a Martha Medeiros, numa crônica bem conhecida, tive dezoito anos. Tive vinte. Tive quarenta. Amei e fui amado em cada fase de minha vida. Já sofri por amor e achei que talvez nunca mais me apaixonasse. Mas, descrer da paixão, do amor, jamais. A idade, se é uma realidade que pode dificultar as coisas, traz consigo algumas vantagens. Inclusive em matéria de conquista, inclusive no jogo da sedução. Dou a palavra à cronista: "Avançar envolve progresso. Avança-se não só em relação ao tempo, mas também em relação ao meio em que se vive, aos conceitos que nos são impostos. Avançando, nossa percepção do mundo é ampliada, nossa história de vida acaba se justificando e nos preparando para o que vem mais adiante." Perfeito, Martha.

É fato que a mídia, a publicidade, a tevê à frente, têm supervalorizado a geração saúde, a turma da 'barriga de tanquinho' e dos corpos sarados. É fato que a beleza física parece ainda imperar na sociedade de consumo. Daí a fechar os olhos para a contraface disso, vai um abismo de diferença. Via de regra, a mulher se tornou mais exigente e os parâmetros de avaliação são outros, além dos aparentes. E do homem, diga-se em tempo.

Ter 'idade avançada', fique atento, pode significar estar à frente, descobrir onde dormem as andorinhas ou saber como se assam as castanhas. Vai ver, cedo ou tarde, o meu amigo descrente encontrará o novo caminho, que haverá de levá-lo à mulher dos sonhos. "Daqui, deste posto avançado em que me encontro, diz a cronista, posso dizer que a gente ama muitas vezes e que a vida tem mais portas do que parece." Muitas delas entreabertas, é bom lembrar.

14 de março de 2009




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