O horizonte em que vislumbro a paz

Para Valéria Aversa
 
Ano passado, escrevi neste espaço em favor da instituição do Dia Internacional do Homem. Defendi a idéia de que, mais que uma questão de gênero, tratava-se de uma questão genérica. Trocadilho à parte, esclareci que a violência e outras formas de maus-tratos à mulher são um problema essencialmente educacional. E expus argumentos que não foram rechaçados, sendo o texto objeto de referências elogiosas da parte de muitos e muitos leitores. Leitoras, inclusive. Digo isto, obviamente, sem nenhum prurido de vaidade, mas provocado pela convicção de que a reflexão levantada tem pertinência, observado, por certo, o que traz de polêmico.
 
Penso que a questão da mulher tem sido tratada com vulgaridade, tornando-se um lugar-comum, um dos muitos clichês que, infelizmente, povoam algumas das nossas discussões mais sérias. Claro que não se pode negar que a mulher continua sendo tratada com desrespeito, aqui e além; claro que, por mais que tenha conquistado, ainda falta à mulher muito dos direitos que lhe são negados, pela força e por outros meios não menos perversos de exploração adotados pelo homem; claro que o olhar dominante é, ainda, falocêntrico. Mas o debate em torno desta questão me parece por demais romantizado, ressentindo-se de uma fundamentação mais geral, algo que se coloque no bojo das discussões que dizem respeito ao homem, à condição humana.
 
As dificuldades já podem ser observadas pela própria idealização que se faz da mulher, como se o gênero, por si só, dotasse a mulher de propriedades que a diferencia do homem como medida da sua superioridade. E não seriam homens e mulheres iguais? O feminismo de outrora, que tanto confundiu o debate, não se tem reproduzido de forma disfarçada no discurso sexista contemporâneo? É o que me parece estar acontecendo em larga escala, o que, a meu ver, resulta num lengalenga que mais cansa que contribui para qualquer avanço. Acho que homens e mulheres devem somar forças pelas construção de um mundo melhor, mais livre, mais justo, mais fraterno.
 
Não quer isto dizer que não se deva homenagear a mulher nesse 8 de março. Assim como se deve homenagear o aniversariante do dia, a mãe na data que lhe é consagrada, a exemplo do pai, da criança, dos profissionais em suas muitas versões.
 
Enquanto escrevo a coluna de hoje, para não faltar com o sentimento de gratidão e carinho, no filminho das minhas recordações, penso nas mulheres que me marcaram a vida; minha mãe, com a doçura do seu olhar e a gratuidade de sua entrega; minhas ex-companheiras, a quem devo tanto de vida que construí, e que me fizeram melhorar como homem, inclusive na dor; as muitas amigas que fiz, que me têm dado a medida exata do significado de ter amigos, num mundo tão desumano, tão sem amor. Penso na mulher que amo, tão distante e tão dentro de mim, neste instante - a quem dedico toda a ternura do olhar que alforrio, através da janela, na direção do horizonte em que vislumbro a paz. Amor.

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