Divã

Noite dessas, em Piracicaba, vou com Valéria assistir à versão cinematográfica da novela Divã, primeira experiência em narrativa extensa da cronista Martha Medeiros. O texto fora adaptado há tempos para o teatro, constituindo um dos maiores sucessos do palco nos últimos anos. Atraiu algo próximo dos 200 mil espectadores Brasil afora. Não tenho informações sobre a bilheteria do filme, que tem como protagonista a atriz Lilia Cabral; a mesma que interpreta Mercedes no teatro. Mas arrisco, sem medo: vai bombar.

Não que se trate de uma obra densa, complexa em sua tessitura dramática ou construída com uma linguagem inovadora e muito original. Enfim: um grande filme. Antes pelo contrário, a película obedece a uma narração recorrente no gênero comédia, na linha de Se eu fosse você 2, que lidera o ranking desde a retomada do cinema nacional pós-Collor, com bem mais de 1 milhão de espectadores. O quê, então, justifica tão expressivo sucesso de público? Simples: homens e mulheres veem-se na história de Mercedes e Gustavo (José Mayer), cuja crise conjugal um dia explode da forma mais desconfortável: a traição.

Mercedes, uma mulher quarentona de classe média, das milhões que existem em todo o Brasil, casada e mãe, decide fazer análise, como forma de reencontrar sentido para sua vida. Eis que a experiência detona um desesperado ato de libertação, que, como é recorrente nas analisadas, não-raro vai resultar grotesco, mas bastante divertido. Para o desconforto dos que se sentem bem casados, mas fazem da vida a dois uma aceitação resignada da renúncia aos desejos mais íntimos, à Simone de Beauvoir, o filme levanta uma inquietante reflexão em torno da liberdade no casamento. Pior: desconstrói o mito da dominação à luz de uma sociedade equivocada e mal-resolvida. Para não falar da leitura negativista de uma das mais reverenciadas instituições do Ocidente, a família. Inquietante.

Mercedes é, como disse, uma mulher comum, inteligente, dedicada à família e, em princípio, apaixonada pelo marido. Esses atributos, que estabelecem os parâmetros mais rotineiros da sociedade falocêntrica brasileira, não são suficientes para fazê-la feliz. Vê-se, então, que, ao lado de tantos 'bons' atributos, possui um que foge ao comum das maioria das mulheres de mesmo perfil: o senso de liberdade. A uma dada altura, já fazendo psicoterapia, profere a frase mais desconcertante do filme: - "Não tenho medo de perder o senso. Eu tenho medo é dessa eterna vigilância interior, tenho medo do que me impede de falhar." Arre!

Confesso que, já à saída do cinema, vive-se o doloroso processo de revisão de muitos dos nossos valores. Os corredores parecem demasiado estreitos, a iluminação é pouca, os músculos doem. O que se passa, então? Se passa o milagre que só a arte é capaz de processar. A arte, além das suas inúmeras outras funções, faz-nos melhorar, como homem ou mulher, na medida em que mobiliza a nossa inteligência de encontro aos demônios interiores mais inconfessáveis. Ela nos convoca a uma reflexão profunda em torno das aparentes banalidades, que, passando despercebidas, minam a estrutura do amor na vida dos casais.

Numa outra fala devastadora, diz Mercedes: "Ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta." Por estas e outras razões, o filme Divã cumpre à perfeição o seu papel e dignifica a obra originária de Medeiros. É visceral, e, no entanto, presta um serviço relevante aos que amam e sonham em ser verdadeiramente felizes.

Abril de 2009






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2 comentários:

  1. Pai, o blog tá lindo! Usando os adjetivos que você gosta de usar: tá leve, elegante.

    Li agora esse texto sobre o filme Divã. Tá muito bom, como todos os outros. Vá assistir ao 'Che'. Tô esperando o comentário.

    Beijo!

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  2. Obrigado, filhão! Você sabe que o mérito é todo seu, que além do grande médico que será, transita com esse imenso talento no campo da programação visual. Coisa que já havia feito na capa de um livro meu, lembra? Te amo muito, você sabe disso. Beijo carinhoso!

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