Internet, namoros virtuais e traição

O homem é ele e suas circunstâncias. (Ortega y Gasset)

Dia desses, uma amiga me perguntou: a Internet está contribuindo para acabar casamentos? Tive de dizer-lhe, antes de responder, que sempre fui muito reticente em relação aos sites de relacionamento. Achava mesmo uma babaquice, um jogo de falsidade em que todos se escondem daquilo que são e tentam mostrar aquilo que não são. Enfim, uma fantasia que nada de positivo trazia para quem quer que fosse. Mas, como a ocasião faz o ladrão, vi-me de repente solteiro e, como é comum nesses casos e em princípio, sem saber o que fazer com a liberdade ou como lidar com a solidão. Para o bem ou para o mal, eis que cedi aos apelos do msn e me descobri teclando feito um desesperado, um habitué desse baile de máscaras que é hoje uma mania de todo homem ou mulher minimamente íntimo da comunicação virtual.

O fato é que fui descobrindo o que há de interessante no troço e já tenho um punhado de pessoas, em sua maioria mulheres, com as quais me comunico com freqüência pelo menos semanal. O bicho pega, vicia, cria uma dependência gostosa - é a minha cachaça atual. Confesso, para não faltar com a verdade, que em muitos casos tem rolado uma cumplicidade que ultrapassa os limites da simples amizade. Tenho conhecido gente interessante e com algumas mulheres tenho tido relacionamentos marcantes. Se vai dar ou não para achar a minha cara-metade, não sei, mas que a vida se tornou muito mais fácil, não vou negar.

A que se deve o sortilégio desse negócio, francamente não sei. Talvez a intimidade aflore com mais rapidez e a conversa dispense o mise-en-scène dos encontros acidentais, onde, em princípio, o conteúdo pesa bem menos que a embalagem. Você não repara na roupa, nos brincos e anéis. Não repara na textura da pele, no tom dos cabelos ou no esmalte das unhas. Não se preocupa com a formalidade às vezes indispensável do contato pessoal. Não tem de esperar aquele olhar desejoso, que às vezes é mesmo fruto de um erro de interpretação e não raramente leva o cara a dar com os burros nágua. Aqui, você vai direto às idéias, à cultura, à inteligência do outro - e logo conclui se existe o interesse de ir adiante. Você vai se deixar atrair ou não por alguém que você enxergou pela alma, e não pela beleza exterior.

Mas, como tinha que responder ao que me perguntara a amiga, disse que não. Ou melhor, em termos. É claro que a comunicação virtual dá uma mãozinha - e que mãozinha! -, mas, lembrando Galeano, o cronista uruguaio, acho que "a culpa do crime nunca é da faca." Mas, afinal, insistiu a amiga: A que se deve o crescimento espantoso dos casos de adultério? Ih, minha amiga, essa história se confunde com a história dos homens, faz parte da libido de que nos falou Freud e tem raízes em tempos que não se pode precisar. Se cresceu - e acho mesmo que cresceu enormemente - é que as mulheres conquistaram a sua independência, tornaram-se donas do seu nariz. O que leva um casamento ao fracasso, na maioria das vezes, é o fato de que a mulher um dia resolve vasculhar o fundo de suas gavetas interiores e redescobre em si os valores, e sentimentos, e emoções que havia silenciado durante anos em relações amorosas muitas vezes sufocantes, mornas e rotineiras. Um dia ela vai encontrar alguém que, como ela, deseja fazer da vida uma eterna novidade, que gosta de filmes, livros, viagens. Aí, minha amiga, como na fala desconcertante de uma personagem do filme Crimes e Pecados, de Wood Allen, "a gente é a soma das nossas decisões."

13 de março de 2007







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