Os velhinhos de Piracicaba

Com efeito, escrever sobre o Amor é tarefa não fácil de realizar. Momento, explico-me melhor: é tema já tão mastigado, que procurar uma ótica original de fazê-lo chega a parecer impossível. Mas - como neste instante em que deparo com a `página´ em branco -, às vezes nos sentimos tão provocados a retomar o tema, que impossível mesmo é nos furtarmos ao desafio. Vamos a ele.

De início, contudo, devo ter a honestidade de revelar uma coisa, que, sendo de foro íntimo, talvez não coubesse numa página de jornal, assim, tão gratuitamente (risos). Estou em estado de paixão! Sim, com exclamação. Assim estando, o homem vê poesia em tudo e, sobre tudo o que pode ser o Amor, sente-se motivado a falar, ainda que se trate de fatos inusitados e de aparente pouca ou quase nenhuma relevância. De novo, explico-me: andando pelas ruas da cidade paulista de Piracicaba, de onde escrevo esta coluna, deparo com um casal de velhinhos que me chamam a atenção e deixam-me sob incontido lirismo, como numa extensão daquilo que, estou certo, inunda seus corações neste instante.

Têm algo em torno dos 75, 80 anos, pouco mais ou menos, e, todavia, de tão `apaixonados´, parecem mesmo dois jovens no mais pleno vigor de suas vidas. A uma dada altura do tempo em que os observo, que não deve extrapolar o espaço de dois ou três minutos, ela quer arriscar-se a fazer a travessia de uma rua movimentada. Chove uma chuvinha fina e constante. Segurando-lhe a mão, ele resiste e, de repente, parece esse desencontro de intenções ensejar uma discussão dos dois. A uma pequena distância, não contenho a curiosidade e fico a acompanhá-los naquela `pugna´ imensa. Chego a ficar apreensivo, posto que os dois velhinhos estão entre o meio-fio e a faixa que indica o início da pista por onde passam carros em boa velocidade.

O que parecia ser o começo de uma discussão entre rabugentos, coisa não-rara na vida dos casais idosos, torna-se pública demonstração de carinho e bem-querer recíproco. O dois velhinhos entreolham-se e, como que num passe de mágica, entregam-se num beijo fremente, desses com que só se vêem beijar os jovens amantes. Eu tenho amado tanto e ainda não conheço o amor, ocorre-me o verso de Bilac. Discretamente, levo o indicador à face e continuo minha caminhada sem destino pelas ruas desta simpática cidade.

Que beijo tão doce e tão terno. Já se tem falado tanto sobre o Amor, dizia eu há pouco. E, no entanto, como me disseram novidades sobre o tema esses velhinhos de Piracicaba.

31 de janeiro de 2009



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