Viagens de Gulliver

Volta e meia, escrevo neste espaço sobre o Brasil bom, o Brasil que vem dando certo sob a chefia do presidente Lula. Este 'olhar' pessoal e otimista, não-raro, tem gerado críticas dos leitores da coluna, ressabiados com as coisas que começam bem e, comumente, têm desfecho desastroso. E aja recordações não muito felizes do nosso passado recente. O certo, contudo, é que a turma do quanto pior melhor, vez por outra, parece ressurgir das cinzas, com a 'voz rouca' do mau agouro anunciando o desastre que se aproxima. Em parte, claro, esses leitores têm razão. Se se atenta para a qualidade dos nossos políticos, então, fica difícil nutrir esperanças. A eleição para presidente da Câmara e do Senado que o digam. E não é coisa de agora, todos sabem.

Dia desses, relia eu um artigo de Machado de Assis, de 29 de dezembro de 1864, em que o Bruxo de Cosme Velho cita o irlandês Jonathan Swift (1667-1745) para se referir aos anões políticos do Brasil, mais empenhados em defender seus interesses pessoais que os legítimos interesses da população. Para os que não conhecem a história de Swift, está no Viagens de Gulliver, em que o personagem-narrador apresenta uma corrosiva e desencantada visão de sua época e da espécie humana.

O caso do novo corregedor da Câmara, Edmar Moreira (DEM-MG) é um exemplo convincente do nosso ananismo político, que me perdoem o que for na expressão de politicamente incorreto. Envolvido em ilícitos de toda ordem, o deputado mineiro tem como primeiro 'grande projeto' o fim do julgamento dos congressista pelos colegas. Vai além e declara: "Parlamentar não é polícia". Mil graças!

O fato deixa a nu um aspecto preocupante: como integrante do Conselho de Ética, Moreira absolveu, sem exceção, todos os parlamentares envolvidos com a prática da corrupção, por suposto, os mesmos que agora o elegeram corregedor.

Se em Lilipute, no imaginoso livro de Swift, Gulliver conhece um país em que as pessoas têm um duodécimo de sua estatura, em Brobdingnag vai deparar com gigantes doze vezes maior que ele. E eis que o nosso pigmeu também vive situação semelhante e sai do Congresso para o gigantismo do seu castelo em Minas, com 36 suítes e torres de oito andares. O edifício está à venda pela 'bagatela' de 25 milhões, mas o deputado declarou seu patrimônio à Receita em R$ 9 milhões. Não à toa, como se vê, que o novo corregedor é contra as cassações e se diz favorável a que os casos de corrupção sejam julgados pela 'justiça lenta'. Claro está: dificilmente um deputado perderia seu mandato daqui por diante.

No artigo de Machado, por sinal, a existência dos dois Brasis já se faz perceber pelo autor: - "O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política, nada temos a invejar no reino de Lilipute". Sábio Machado, tão atento às coisas do seu tempo, que, de resto, continua em muito parecido com o de agora. O que não significa dizer, óbvio, que tenhamos de fechar os olhos para o Brasil bom.

7 de fevereiro de 2009



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2 comentários:

  1. abro ainda mais meus olhos para o presente que convive com o passado. Uma contradição que me deixa nostálgico.

    sou seu aluno.
    me visite também: jesuitabarbosa.blogspot.com

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  2. Obrigado pela visita e comentário. Abraço!

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