Seios à beira-mar

Uma mulher nua seria menos perigosa do que é uma saia habilmente exibida, que cobre tudo e, ao mesmo tempo, deixa tudo à vista. Balzac (1799-1850)

Com uma coisa hão todos de concordar: o Brasil é, hoje, um país extremamente avançado em termos de sexualidade. Nunca se viu tanta naturalidade diante do sexo, amassos, carícias atrevidas em público, corpo à mostra etc. Vai ver, tem isso alguma relação com o nosso clima, nossa ancestralidade aborígene, nosso espírito dionisíaco, nossa indisciplina atávica, sei lá. O que é certo é que o brasileiro tem-se mostrado um povo mais aberto nesse sentido. Lidamos melhor com a libido, mesmo quando tomamos como parâmetro países desenvolvidos da Europa, Holanda à frente. Na tevê, já não espantam as cenas de sexo explícito, quer na ficção novelesca, quer na ficção cretina do BBB, quando nossas crianças ainda estão em pleno exercício de sua vitalidade infinda.

Dia desses, na praia, no entanto, duas garotas resolveram tirar a parte de cima do biquíni e bronzear os seios, que, diga-se de passagem, eram bastante formosos. E qual não foi a minha surpresa: em poucos minutos, estavam rodeadas de marmanjos. Os rapazes que jogavam frescobol largaram num instante suas raquetes, os garçons esqueceram seus clientes e até os seguranças da barraca, na maior sem-cerimônia, foram dar uma olhadinha de perto. Gente, o que é isso, falei com meus botões - e olhe que nem os tinha comigo, naquele instante. Passei a debater o fato com minha namorada, que me chamara a atenção para o inusitado. Por que o brasileiro, que lida tão bem com essa coisa do sexo, como disse, entrega-se ao maior frisson diante do topless?

O corre-corre de rapazes - e até algumas moças, acrescente-se - diante da nudez daqueles seios era algo que chamava a atenção de todos, muito mais do que a juventude mamária das garotas. Daí a pouco, quem sabe contagiado pela curiosidade incontida da rapaziada, vi-me também atraído pelos dois belos pares de seios, a ponto de ser repreendido pela namorada. Disfarcei e desferi a pergunta: - Por que o topless ainda causa tanto furor? E ela, sem titubear: - "O brasileiro é, foi e será sempre um machista. Qualquer nudez o desconcerta!" Atribuo a curiosidade coletiva ao inesperado, que, como todo inesperado, tende a chamar nossa atenção. Quem sabe o gosto pelo proibido. É isso, afirmo. Ou não, como diria o Caetano. Foi aí que lembrei de uma crônica da Martha Medeiros sobre o tema.

Está no livro Topless, de 1996. Para ela, o brasileiro adora sacanagem [sic], o que cria uma falsa imagem de modernidade. Mas, no fundo, somos de uma caretice atroz. Diz ela: - "Dançamos na boquinha da garrafa, mas não toleramos a liberdade de costumes".

A propósito, releio em edição quentinha os contos de A vida como ela é, de Nelson Rodrigues. O reaça era mesmo genial. O livro reúne textos publicados a partir dos anos 50, em jornais do Rio. Numa linguagem direta que caracteriza a ficção de Nelson, narra crimes passionais, casos de ciúme e obsessão, desejos inconfessáveis, dilemas morais, adultério e, claro, muito sexo. A reboque, nas lojas, vem em DVD a fidelíssima adaptação de Daniel Filho para a tevê Globo. Vale conferir.

29 de fevereiro de 2008

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