Dia das mães

Quem é essa mulher / Que canta sempre este estribilho / Só queria embalar meu filho / Que mora na escuridão do mar / Quem é essa mulher / Que canta sempre esse lamento / Só queria lembrar o tormento / Que fez o meu filho suspirar / Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo / Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar / Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar.
 
O texto acima é a letra da belíssima canção Angélica, composta por Chico Buarque de Holanda em homenagem à estilista carioca Zuleika Angel Jones, ou simplesmente Zuzu Angel, como se tornou mundialmente conhecida por sua luta pela recuperação do corpo do filho Stuart Angel Jones, morto nas dependência do DOI-CODI nos anos 70. A luta de Zuzu, como disse, teve repercussão internacional, tendo envolvido até os Estados Unidos, conforme mostra bem o filme de Sérgio Rezende plasmado em sua história, com Patrícia Pilar e Daniel de Oliveira interpretando mãe e filho.
 
O caso, a que se somaria, no Brasil, o movimento das mães da Candelária, é semelhante ao das mães da Praça de Maio, na Argentina, um verdadeiro marco na história das lutas femininas em todo o mundo. Quem nunca terá visto a inconfundível imagem daquelas mulheres com fraldas na cabeça como se fossem simples lenços, numa simbologia que emociona? Estando lá, há tempos, acompanhei uma dessas manifestações, algo de que jamais vou me esquecer, tão tocante, terna e ao mesmo tempo guerreira é a forma com que essas mães expressam a sua dor e a sua revolta contra a Ditadura Militar que lhes roubou os filhos e seus corpos, supostamente atirados ao mar.
 
Por outras razões, que não as razões políticas que dilaceraram os corações de Zuzu e das mães argentinas, acompanhei de perto a dor de uma irmã, quando morreu Igor, seu filho, num acidente de carro há cinco anos. É indescritível, não existem palavras que possam traduzir com exatidão o que isso representa. Não há conforto, não há alívio possível para essa dor que só o tempo é capaz de fazer acalmar no mais profundo escaninho do coração partido.
 
Venho pensando nisso nesses últimos dias, quando parece se tornar recorrente o ato de mães abandonarem seus filhos, a exemplo do caso do interior de São Paulo que repercutiu Brasil afora. É claro que a realidade dessas mães, em sua gigantesca maioria, é desumana de tão difícil, que a falta de condições materiais e de perspectiva de uma vida digna é um fato para muitas delas. Daí a compreender que uma mãe seja capaz de abandonar um filho num depósito de lixo, vai um abismo de diferença. 

Desde o primeiro caso, mais recente, aquele em que a atitude de um catador comoveu o Brasil inteiro, pela percepção clara do que o abandono de uma criança ao lixo representa, mesmo estando ele nas condições miseráveis em que estava, infelizmente a coisa parece querer se tornar rotina e outras mães agem da mesma maneira país afora. No mês das mães, e na véspera do dia que lhes é dedicado, a música de Chico ecoa nos meus ouvidos, numa espécie de espanto que mistura carinho e revolta. Quem são essas mulheres que, mesmo no desespero de um instante, não portam dentro do peito o amor de uma mãe? É a pergunta que não quer calar.
 
 
 
 
 
 

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