O poder da simplicidade

À saída do cinema, uma amiga me aborda: - "Ainda prefere O Artista, depois desse show do Scorsese?" Tínhamos acabado de assistir ao belíssimo A invenção de Hugo Cabret, que, no dia seguinte, viria a ser premiado com cinco estatuetas do Oscar. Não titubeei. Sim, acho o filme de Michel Hazanavicius muito superior, o que não é o mesmo que fechar os olhos para a beleza cinematográfica dessa extraordinária homenagem a George Méliès. São filmes diferentes, embora tenham pontos comuns entre si. Aquele, mais elaborado enquanto linguagem, mais sofisticado em sua produção. Este, mais poético, mais sensível e mais bem construído dramaticamente falando. Duas pérolas.

Enquanto tomamos um café, ainda nos espaços do shopping, minha amiga, que tem um senso crítico bastante aguçado do ponto de vista estético, ainda comenta o filme de Scorsese: - "A fotografia, a música, o ritmo do filme é coisa de louco!" (sic), afirmava. De fato, mas continuo seduzido, perdidamente seduzido, pelo filme de Azanavicius. A propósito, retomo uma afirmação de José Wilker, durante a cerimônia de entrega do Oscar, que achei muito curiosa: "Os filmes vencedores [O Artista e Hugo Cabret] farão com que cineastas e produtores repensem a maneira de fazer filmes a partir de agora..." Bate.

Acho mesmo que é este o grande recado da Academia. O monumentalismo das últimas produções, a demasiada preocupação com os efeitos especiais, as 'viagens adolescentes' da maior parte dos realizadores, mesmo os muito talentosos, vinham roubando do cinema aquilo que lhe é próprio, ser uma arte do tempo e da sua articulação com o espaço através da imagem. O grande filme é aquele capaz de contar com simplicidade uma história, explorando as possibilidades de uma linguagem que traz em si o diálogo de muitas outras, pois o cinema, como quis Sergei Eisenstein, é de certo modo "as síntese de todas as artes." O requinte da produção do filme de Scorsese, atente-se, não tirou dele o que chamo aqui de simplicidade. Pelo contrário, a lógica da narrativa foi observada com um rigor estético poucas vezes alcançado nos últimos anos. Nesse aspecto, contudo, ainda uma vez é O Artista o exemplo mais completo, como fenômeno de significação artística e como expressão do "belo" desinteressado de que nos falou Kant.

Esteticismos à parte, os premiados deste ano, pela Academia, voltam-se para o passado e encontram nesse passado as raízes do que se pode fazer de melhor em termos cinematográficos. Os diretores parecem ceder, finalmente, ao que lhes parecia um impróprio convite, o retorno à ausência de complicação, ao natural e ao espontâneo, pois o grande filme (não importa se a tecnologia lhes colocou nas mãos as possibilidades que se conhecem hoje) é resultado da criteriosa articulação entre direção, roteiro, cinematografia. É isso que nos faz ir ao cinema e sair dele, como minha amiga e eu, absolutamente convencidos pela força e pelo sortilégio da arte de Martin Scorsese.



2 comentários:

  1. Saudações. Áldedr!

    No conjunto da obra, O Artista foi o filme do ano, até porque, diferentemente do suntuoso e não menos brilhante Hugo Cabret, só arrebanhou os prêmios mais relevantes, deixando os técnicos para a película de Scorsese, já um pouco preocupado com os números de expectadores do filme; em outras palavras, o custo x benefício, tendo em vista que Hazanavicius gastou bem menos na sua produção e já quase alcança o mesmo número de expectadores de Hugo Cabret.

    Agora, o meu destaque nesta premiação fica para a, ainda insuperável, Maryl Streep, com seu carisma e simplicidade artística dignos de um outro Oscar.

    E finalizando, Álder, as mulheres sempre têm um senso crítico mais ‘pontiagudo’ do que o nosso (risos). Às vezes, é difícil aturar. Mais uma vez, texto impecável.

    Abraços!

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  2. Também continuo preferindo [e MUITO!] "O Artista"!!!
    Confesso que "Hugo" apenas mexeu um pouco comigo. E foi mais nesse meu "Eu Realizador/Sonhador" e não no meu "Eu Expectador/Sonhador".

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