É o conceito de envelhecer que envelhece

Como estivesse aniversariando, amiga telefona para me cumprimentar e termina o contato com a afirmação curiosa: - "Outro dia, o vi atravessando uma rua e pude reparar no quanto você está envelhecendo bem!" Desligo o celular e fico matutando sobre a afirmação ambígua. Envelhecer bem, a uma dada altura de nossas vidas, pode significar que estamos envelhecendo muito -- e celeremente. Uma outra chama a atenção para o fato de que Chico Buarque está amando uma moça quarenta e alguns anos a menos que ele. Nada mal, como se pode ver, quando se é Chico Buarque de Holanda (risos), o que não é um status fácil de se conquistar, convenhamos. Brincadeira à parte, vamos ao que interessa.

O fato é que a paixão do gênio pela cantora Thaís Gulin rendeu para os amantes de sua música um belo blues, Essa Pequena, com que expressa o enlevo de entregar-se outra vez à melhor das emoções: "Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza o dela é cor de abóbora / Temo que não dure muito a nossa novela, mas / Eu sou tão feliz com ela". Se não estamos, de fato, diante do melhor Chico Buarque, a letra não desmerece o seu criador. Antes pelo contrário, na medida em que a poesia é doce e simples quanto o coração do 'menino' apaixonado.

Por sinal, segundo e-mail enviado pela amiga, o affair do artista com a pequena ruiva ainda rendeu uma crônica excepcional de Rosiska Darcy de Oliveira, em que a socióloga levanta reflexões bastante interessantes sobre o que significa envelhecer. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos, por imperdíveis: - "Chico Buarque vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue o seu caminho e tomara que ele continue cantando "eu sou tão feliz com ela" sem encontrar resposta ao "que será que dá dentro da gente que não devia".

Acho que aí está o segredo para envelhecer bem, agora sem a ambiguidade dos cumprimentos de minha amiga. Sob este aspecto, aliás, é que vem da cronista a frase lapidar: - "O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas". Envelhecer, que a tantos parece apavorar, já na fronteira dos 40, nas mulheres, dos 50, nos homens, não passa de uma tolice, posto que é coisa inevitável na vida de todos nós. O segredo, se segredo existe, está em lidar com tranquilidade com as mudanças do corpo, impedindo-as, a todo custo, que possam atingir a mente, nicho em que repousam as eternas novidades da vida. Não fosse a imagem no espelho, como diz Rosiska, os netos que nascem e os amigos que morrem, não fosse o tempo "um senhor tão bonito como a cara do meu filho", nas palavras de Caetano (outro a quem o envelhecimento só embelezou), quem por si mesmo se perceberia envelhecer?

Para o bem ou para o mal, assim, é que preferi tomar por elogio a constatação de minha amiga. Fecho com Rosiska: "É o conceito de velhice que envelhece" e "são cada vez menores as fronteiras que separam as fases da vida". Que bom!



3 comentários:

  1. Saudações, amigo!

    Belo texto! Mas acho que a questão não é que estamos (generalizando) envelhecendo bem, ocorre que com essa ciência a todo vapor, cada vez mais demoraremos a dar sinais de idade avançada. Dizem que o homem que vai viver 150 anos já nasceu. Bom, eu não sei; mas desejo felicidades a ele. Agora no que se refere ao velho Chico (com todo respeito, é claro), as mulheres ― principalmente ― bem que poderiam tentar entender e aceitar isso. É uma coisa bíblica o homem com mais idade casar-se com uma jovem para que ela esquente os seus dias de senilidade (risos). Mas também é sério.

    Ao resto do seu texto: É verdade e dou fé; Assino em baixo; Tiro o chapéu...

    Abraços, Álder!

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  2. Meu querido amigo e amigo da mesma data. Envelhecemos os dois, mas o dom da criação renasce, a cada dia. Lembro-me ter lido a crônica, por sinal ímpar, de Rossiska e, talvez, não lhe ter dado a conotação que você, com profundidade, introduziu nesse sublime texto.Que bom que os cabelos prateados façam refletir, nos de cor de abóbora, o quão somos sutis e varonis, quando somos testados. Realmente, os conceitos sobre velhice é que envelhecem e, de acordo com o Francisco aqui em seu comentário, esse homem, que viverá 150 anos, e que já nasceu, para ele desejo a felicidade de encontrar um Chico Buarque, gênio, e um escritor igual a você,de escol, sempre com a sensibilidade aguçada. Parabéns, meu amigo de 29 de março.

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  3. "e "são cada vez menores as fronteiras que separam as fases da vida". Que bom!" - Eu gostei disso Professor...

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