Coisas do amor, apenas

Leitor se diz mais identificado com os textos que escrevo sobre política: - "Sempre leio sua coluna, mas sinto falta daquelas críticas contundentes sobre política. Você agora só quer falar de filme de amor..." (sic) Refere-se aos primeiros dois ou três anos da minha coluna no jornal A Praça, quando a proposta era de fato outra e as crônicas tematizavam a vida pública da cidade. Há seis, sete anos, todavia, tenho dado outro rumo às mesmas, intencionalmente criando aqui um espaço dedicado ao que, na falta de uma terminologia mais precisa, considero um tipo de animação cultural, em que pontua como fio condutor as coisas do amor. O comentário fez-me lembrar de uma declaração muito conhecida do cineasta François Truffaut quando criticado por fazer, no que se tornaria uma de suas marcas, filmes sobre o amor. Disse certa vez:
 
"O amor é o tema dos temas. Ocupa tanto espaço na vida, nos apartamentos, nas ruas, nos escritórios, nos jornais, na política, na guerra, nas fábricas, na vitória, no fracasso [...] que, se me provassem estatiscamente que noventa por cento dos filmes são sobre o amor, ainda assim eu responderia que isso não basta. Um homem de sessenta anos e uma moça de quinze dão Lolita. Uma mulher de quarenta e um rapaz de vinte, Adolfo. Um rapaz e uma moça de dezesseis, Romeu e Julieta [...]" E passa o 'poeta' da Nouvelle Vague a citar filmes e filmes, clássicos, que foram rodados a partir de roteiros que falam do amor.
 
Reli isso e senti, eu mesmo, uma vontade de citar alguns dos meus filmes preferidos sobre o tema. De memória, tomo a liberdade de dizer alguns: Casablanca, E o Vento Levou, Último Tango em Paris, Interlúdio, Viver por Viver, Uma Mulher para Dois, Luzes da Cidade, Dr. Jivago, Aurora, As Pontes de Madison, Desencanto, O Amor em Fuga, O Amor nos Tempos do Cólera, O Carteiro e o Poeta, Cinema Paradiso, para ficar naqueles que me ocorrem, assim, de imediato, sem qualquer rigor cronológico ou estilístico. E diferentes do ponto de vista de sua qualidade estética, claro.
 
É amor que move a vida. Em tempo, vejo na tevê a divulgação de dados do IBGE sobre relacionamentos: o número de divórcio cresceu vinte por cento em dez anos. A informação, vista assim, parece ir na contramão da afirmação com que inicio o parágrafo. Ledo engano, o levantamento do Instituto aponta que cresceu significativamente o contingente dos brasileiros e brasileiras que vão do primeiro, para o segundo e terceiro casamentos. Conclusão: neste país não se aprova a ideia de viver na solidão, mesmo que ainda seja expressivo o número de pessoas que moram sozinhas, o que não quer dizer, ressalte-se, que viveem sem o outro, sem a mão que protege e o coração que ama. Juntos, amorosamente, mas vivendo em casas separadas. Sartre e Beauvoir, sob este aspecto, tanto quanto como filósofos, ficaram conhecidos por viver este tipo de relacionamento. Mas sobre os dois (e a proposta ainda inquietante da vida que viveram) já escrevi dia desses. Deem-me um tempo que vou rever Um Homem e Uma Mulher Vinte Anos Depois, o belo filme de Claude Lelouch sobre o reencontro de dois amantes depois de um rompimento prolongado. Não vai nisso, amigo leitor, nenhuma provocação. Coisas do amor, apenas.
 
 

3 comentários:

  1. Dileto amigo e escritor. Para comentar sobre o tenho, forçosamente, que concordar com sua assertiva de que o amor move a vida. Digo forçosamente não por imposição do texto, ao contrário, mas pelas forças que me movem quando falo sobre o amor e, você também. Chamou-me a atenção o seu pedido de tempo para repatriar conceitos seus sobre o tema mas, insisto em criticar, não só nesse espaço, mas, também, quando conversávamos tardes inteiras sobre variados temas, que você tem uma bagagem extrema para discorrer sobre o amor sem precisar buscar algures pilares de sua vivência temática. Os seus textos são impecáveis, porém técnicos mercê de sua tese de doutorado. Creia-me, quando insisto nesse tema é porque me coloco como um de seus inúmeros leitores, que não assistiram e que, provavelmente não terão como ver o que você induz nas suas análises, sempre precisas sobre cinema. O leitor carece de uma impressão imediata para que ele interaja de pronto. Sem que ele entenda o conteúdo, dificilmente entenderá a mensagem. Perdoe-me se mexi naquilo que você acha que é importante discorrer sobre mas, reafirmo toda a minha admiração pelos seus belos textos, assim como admiro essa maravilhosa pessoa que você é. Grande abraço, direto de Juazeiro do Norte.

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  2. correções: " para discordar sobre o texto..." " ..."que é importante discorrer sobre, mas

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  3. Saudações, Álder!

    É normal que o caro leitor sinta falta de suas crônicas direcionadas àqueles bons camaradas do nosso insípido cotidiano, mas o que importa mesmo é que você continue navegando por esses e outros temas. Nem a política, nem o amor jamais ficarão fora de moda. Embora sejam duas coisas opostas, nunca deixam de ser instigantes.

    Abraços!!

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