Revolução dos Cravos

Nessa quinta-feira 25, fez 40 anos da Revolução dos Cravos. Trata-se de um acontecimento importante, não só para Portugal, que viu cair por terra a mais prolongada ditadura de direita da Europa, mas para todos os países. O Brasil, inclusive, que vivia sob o domínio de um dos mais perversos regimes de arbítrio de que se tem notícia. Não que seus efeitos tenham obtido qualquer significativa repercussão deste lado do Atlântico, mas pelo que ensinou ao mundo em termos de prática revolucionária: a ação pacífica, a poesia levando soldados a colocar cravos nos canos de seus fuzis, num fato simbólico que não tem precedentes na História moderna.
 
Eu tinha 17 anos, estudava o pré-universitário com os olhos voltados para a literatura, sob cujo esteio nascia o meu amor pelas coisas da Arte. Quem sabe por isso, acompanhando as enviesadas informações que a nossa imprensa tacanha trazia até os brasileiros, fizesse ali as minhas primeiras escolhas políticas, animado pela música de Chico Buarque, que compusera para o seu disco anual, a ser gravado com Maria Bethânia, a belíssima canção intitulada Tanto Mar: "Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / Inda guardo renitente / Um velho cravo para mim".
 
Ontem, lendo a Folha de S. Paulo, num hábito que revela uma dosagem inconsciente de masoquismo, admito (a linha editorial do matutino é de enojar), deparo com a curiosa informação do colunista Pasquale Cipro Neto: o 'pá' a que se refere Chico Buarque é uma forma reduzida de rapaz, um vocativo recorrente entre os jovens portugueses, assim como o nosso "cara" ou "bicho", como se dizia à época.
 
Do outro registro feito pelo colunista, já sabia, que muitas vezes analisei a letra da canção com os olhos do professor de Literatura no qual me tornaria poucos anos depois: quando Chico Buarque, num verso antológico, reporta-se "... que há léguas a nos separar", ou seja, separar o Brasil de Portugal, não está se referindo à distância geográfica entre os países, mas à disparidade das condições políticas: Portugal libertava-se da ditadura de Salazar, o Brasil apenas vivia os dias mais difíceis desde o Golpe de 1964. Daí por que o poeta diz a dada altura: "Lá faz primavera, pá / Cá estou carente /  Manda urgentemente / Algum cheirinho de alecrim".
 
Chico Buarque, por sua vez, sob o olhar doente da censura, escrevia algumas das páginas mais brilhantes de sua trajetória como compositor. São dessa década as composições Cálice e Apesar de Você.
 
Sobre esta, por sinal, ouvi outro dia uma declaração desmistificadora do autor: o "você" do título não teria a ver com nenhum ditador, na contramão do que pensávamos naqueles amargos anos. Vi isso num dos DVD's da extraordinária coleção sobre vida e obra de Chico Buarque de Holanda, em 12 volumes.
 
O relevante, todavia, é lembrar da Revolução dos Cravos, agora que são decorridos seus 40 anos, como um acontecimento maravilhoso para os amantes da democracia do mundo inteiro, mesmo os brasileiros, para quem ela, a Democracia, assim com maiúscula, só chegaria muito tempo depois.
           

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