É a minha mensagem

A tomar por base o que se passa no Brasil nos últimos dias, não há outra conclusão possível: este País é reacionário politicamente e doente na perspectiva do que deveria ser próprio de segmentos etários de sua população.
 
Vou por partes: no mês em que se "comemora", isto é, se traz à memória o nefasto golpe de 1964, fato mais repudiável para qualquer mente sadia, cujas consequências vão da censura à imprensa à institucionalização da tortura como política de Estado  --  e fria execução de seus oponentes, sem esquecer o fechamento do Congresso Nacional, é inimaginável o volume de mensagens que circulam pela internet em favor da ditadura militar.
 
Curioso, não fosse isso a comprovação da tacanhez e da falta de discernimento de uma parcela expressiva dos jovens brasileiros, tais manifestações na rede têm origem em tablets e celulares de moças e rapazes que deveriam, como é próprio da idade, olhar para o futuro em vez do passado, notadamente do passado sombrio e arbitrário imposto a todos pelas mãos asquerosas dos golpistas de 50 anos atrás.
 
O que houve no País, naquele ignóbil, repulsivo e pavoroso primeiro de abril, que me perdoem se vai nisso alguma redundância, é indefensável sob qualquer aspecto. É triste, pois, o que essa parcela de nossa juventude faz, influenciada por uma imprensa tão condenável do ponto de vista de suas intenções quanto os generais, os DOI-Codi e o Judiciário sob cuja "legitimação" se deu o golpe de 64.
 
Como no poema de Drummond, a juventude a que me refiro tem olhos pequenos para ver o que ocorreu no Brasil há 50 anos; para ver o assassinato covarde de gente que tinha, à época, a mesma faixa de idade que ela, como ocorreu ao estudante Edson Luiz; para ver o amoníaco escorrendo da boca de homens e mulheres que sonhavam com um País melhor; tem olhos pequenos para ver o que se fez contra Vladimir Herzog e Stuart Edgar Angel Jones, aquele, submetido a choques elétricos capazes de arrebentar nervos e órgãos até à morte, este, quase menino, com a descarga de um jipe enfiada à boca, e atirado, agonizante, nas águas profundas do mar azul do Rio de Janeiro  --  e ver, ainda, o que fizeram também a sua mãe, Zuzu Angel, pouco tempo depois. Esta juventude à qual me refiro tem olhos pequenos...
 
Tem olhos pequenos para ver brilhar, a preço de tanta dor e saudade, tanto sangue derramado, tantos desaparecidos, tantos órfãos de pais vivos, o sol da liberdade que explode no horizonte a cada manhã; para ver, apesar do que precisa mudar ainda, os avanços e conquistas de milhões de brasileiros, por tanto tempo condenados ao descaso dos poderes públicos e à miséria absoluta, e, hoje, inseridos no contexto social de uma vida mais digna e mais humana.
 
Quanto aos mais velhos, homens feitos(?), que se dedicam à mesma prática de enviar mensagens festejando o golpe, que continue explodindo em seus colos, antes da hora, a bomba de Wilson Machado e Guilherme do Rosário. Contrariamente aos jovens de olhos pequenos, a quem dediquei a coluna de hoje, por certo eles, os mais velhos (movidos a sentimentos tão ruins) saberão do que estou falando. Para não lembrar, é óbvio, a outra, a bomba que tinha por alvo Raymundo Faoro, e matou  sua secretária, Lydia Monteiro da Silva. É a minha mensagem.
 
 
 
  
 
 
 
 
            
            
            
           

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