A dor do Ernesto

Ernesto, amigo que não vejo há anos, tem, sobre as relações amorosas, muitas excentricidades. Uma delas era escrever galanteios para a mulher desejada e pedir que não as respondesse. Dizia sempre: "Tenho medo de que não corresponda e prefiro nutrir a esperança de que existe alguma chance".

Contava isso e deixava-nos a gargalhadas soltas. A atitude, embora pareça um absoluto nonsense, tem contudo um viés poético. Em Cinema Paradiso, o belíssimo filme de Giuseppe Tornatore, há uma cena emblemática em confirmação ao que digo.

Alfredo, já cego e arruinado, narra para Totó, a essa altura da narrativa um adolescente no alto de sua primeira paixão, uma história curiosa:

"Era uma vez um rei que fez uma festa na qual estavam as princesas mais bonitas do reino. Um soldado, que estava de guarda, viu passar a filha do rei. Era a mais bonita de todas. Ficou logo apaixonado por ela... Mas o que podia fazer um pobre soldado em relação à filha do rei? Por fim, um dia, conseguiu encontrá-la e disse-lhe que não podia viver mais sem ela. A princesa ficou tão comovida com aquele forte sentimento, que disse ao soldado: 'Se conseguir esperar 100 dias e 100 noites  debaixo de  minha janela, acabarei sendo sua'. O soldado foi logo para lá e esperou um dia, 2 dias, 3 dias, 20 dias... e toda noite a princesa controlava pela janela, mas nunca ele se movia. Podia nevar, chover, ventar, que ele continuava lá. Os pássaros sujavam a cabeça dele, as abelhas comiam-no vivo, mas ele não se movia. Depois de 90 noites, estava emagrecido, esbranquiçado, lágrimas lhe corriam rosto abaixo sem que pudesse segurá-las, que nem forças para dormir ele tinha. No entanto, a princesa ficava só olhando... Decorridos 99 dias, o soldado se levantou e foi embora".

Não me pergunte por quê, diz Alfredo ao rapaz.

É que para o amante não correspondido, é preferível a dor da dúvida à certeza da rejeição. O soldado, na contramão de todas as evidências, decide partir carregando consigo a esperança de que a rainha, no centésimo dia, pudesse, por fim, corresponder à sua paixão.

É o que fazia Ernesto ao escrever suas declarações de amor sem querer do objeto amado qualquer resposta. A esperança de ser correspondido é o que lhe fazia bem, alimentava suas fantasias, adoçava seus dias de solidão.

A referida cena faz rima com outra sequência antológica de Cinema Paradiso, uma das mais belas do cinema. Totó, a duras penas, revela o seu amor por Elena. Mas, a princípio, seu amor não é correspondido. Ocorrendo-lhe a história do soldado, narrada por Alfredo, propõe, então, esperar sob a janela de Elena durante 100 dias e 100 noites.

A sequência dói de tão linda. Mas não serei spoiler mais do que tenho sido. Vejam a obra-prima de Giuseppe Tornatore e confirmem.

Mas no amor a vida sempre surpreende.

Pois não é que o Ernesto me ligou por esses dias?!: "Amigo, não lhe dizia: a mulher casou. Morreu o meu sonho!" Agora, assim sem mais nem menos?, pergunto-lhe, na tentativa de melhor entender. "Não, faz dois anos". Como assim, indago, e só agora você soube? "É, nunca quis saber, evitava encontrar amigos comuns que me transmitissem a dolorosa notícia". Mas Ernesto... "Não dizia que não me desse resposta?", não me deixa terminar. 

Queria atenuar a dor do pobre amigo com as palavras de Nietzsche: "A esperança é o pior dos sentimentos, porque só prolonga a dor". Não para o Ernesto, como se vê. Que Deus suavize seu sofrimento.

 

 

 

 

 

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