A bela lição de Antonia

No Brasil o filme foi exibido com o título A excêntrica família de Antonia, mas no original é apenas Antonia, uma verdadeira obra-prima do cinema. Não o vi à época no circuito comercial, mas só agora, em DVD, presente de um aluno. Havia anos não ficava impressionado com uma obra a um tempo tão despojada e tão profunda. Foi vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1995, para não falar de incontáveis outros prêmios mundo afora. Produção holandesa, é assinado e dirigido por Marleen Gorris, cuja concepção cinematográfica fez-me lembrar os filmes de Eric Rohmer, guardadas as características extremamente originais de um e outro.

Situa-se historicamente no final da Segunda Guerra Mundial, e está ambientado numa pequena cidade do interior da Holanda. Uma mulher, que exemplifica à perfeição aquilo que só se encontra nas grandes mulheres, em inícios do que se convencionou atualmente chamar de terceira idade, decide voltar à província em que nascera para começar uma vida nova, ladeada por Danielle, a filha adolescente. É o começo de uma história comovente e sedutora de cinco gerações, da família excêntrica de Antonia e, por extensão, de uma comunidade marcada por injunções aqui grotescas, extremamente poéticas acolá.

O filme traz a lição que raramente as pessoas conseguem aprender, eu para ficar num exemplo 'clássico': a Beleza, assim, em maiúsculas, como no campo da Estética, lembrando de Platão, Plotino, Kant e outros teóricos que se completam ou se excluem, está nas coisas mais simples e na força das emoções menos elaboradas. Uma verdadeira declaração de amor aos prazeres 'banais', aos olhos de uma sociedade como a nossa, que tem uma incontida vocação para buscar a felicidade no artifício e na 'forçação de barra', longe da paciência e do sossego que são a energia que movem, Antonia à frente, as personagens desse filme encantador.

Se me recorda o diretor de Conto de inverno, a quem me referi acima, nada pelo roteiro, despojado e assustadoramente simples, o filme holandês desconserta e reedita Eric Rohmer pela competente construção dos tipos humanos que movem a ação da obra. Assim como no elegante romântico da nouvelle vague francesa, em Antonia deparamos com personagens densos e profundos, cujas trajetórias vão constituindo ritmadamente ensinamentos de que a vida se constrói a cada dia, sem os projetos visionários com que pensamos o futuro e delineamos os nossos sonhos. Num tempo em que estamos condicionados a antever o amanhã, que quase sempre se frustra, seres imperfeitos que somos, a narratologia de Antonia é como um despertar. De que vale planejar no escuro do abismo de nossas vidas, se o belo do agora vai sendo esquecido em função dos tantos planos. As paixões de Antonia são tecidas com os fios da simplicidade, ainda que a memória guarde registros inapagáveis de um passado que, sabiamente, o tempo recolocou em seu devido lugar.

É consenso entre os amantes da grande arte, que, a cada contemplação do Belo artístico, a leitura de um livro ou a assistência de um filme, como no caso, a vida se transforma em nós, dá maior densidade aos nossos valores (quando positivos) e remodela-os, quando defeituosos. Para não me estender na avaliação estética da obra, sinto-me inclinado a afirmar que A excêntrica família de Antonia ainda salienta-se pela percepção de que a grandeza de uma obra reside mais na verticalidade com que analisa o comportamento humano, o que não significa negar a importância do enredo. No que, também, com a poesia de um amanhecer, Marleen Gorris fez a tessitura desse filme exemplar.

- " No próximo Natal estaremos juntos!", - " A viagem de outubro a Paris vai ser inesquecível!", - "Em janeiro voltaremos a esta praia, com as crianças!", - "Compraremos um apartamento maior no ano que vem!", essas e outras afirmações do gênero, se nos fascinam enquanto construção de sonhos, não-raro nascem condenadas ao fracasso e à frustração. Antonia ensina-nos que devemos viver intensamente o presente, agradecendo ardentemente o milagre de cada amanhecer, retirando a beleza das coisas mais simples do hoje. Como na máxima popular, 'o futuro a Deus pertence'. E nem sempre é o melhor que nos aguarda. Sem pessimismo, mas embriagado dessa generosa lição de Antonia. A felicidade pode vir, nós é que dificultamos a sua chegada.

Um comentário:

  1. Daniel Vasconcelos2 de novembro de 2009 11:56

    Realmente esse é um dos melhores filmes que o cinema já produziu, tanto pela obra em si, quanto pela lição que dele podemos "extrair". O filme trata de questões como casamento, sexualidade e morte de uma maneira ímpar, tão simples e delicada sem no entanto deixar de ser profunda e reflexiva.

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