O fogo passageiro da paixão

Em Cinema Paradiso há uma cena memorável. O projecionista Alfredo, cego e alquebrado, narra para o jovem Totó uma singela estória de amor: um soldado se apaixonara pela filha de um rei, declarara-lhe o seu amor. Mas a princesa pede um tempo para decidir se o aceitaria ou não. Cem dias, é o prazo que estabelece. Em caso afirmativo, a qualquer momento, apareceria no balcão do palácio. E o soldado fica ali, exposto às mais severas intempéries, tempestade ou calor escaldante, o frio que lhe atravessa o corpo, à fome e à sede. Espera heroicamente, contando os dias que passam. Chegado o nonagésimo nono dia sem que a jovem aparecesse, o soldado abandona o posto e parte. Prefere levar consigo a esperança de que a mulher amada pudesse surgir no centésimo dia. Antes a dúvida que a desilusão. Que bela cena sobre a utopia da paixão.

Poesia à parte, na vida real é assim. Ele espera o telefonema que não acontece. Ela abre vezes sem conta a sua caixa de e-mail, mas o bilhete não está lá. Ele olha a cada minuto para o display do celular, mas não há qualquer mensagem. Ela marcou o encontro no barzinho, mas ele não vem. E os dias vão passando sem a novidade tão esperada. Como na estória do soldado no belo filme de Tornattore, chega o nonagésimo nono dia na vida de todo ou toda amante, e ele ou ela vive o desespero da difícil decisão. Esperar o centésimo dia, enfrentar a realidade e a dor do sentimento não correspondido ou sair em retirada? Carregar a dúvida do improvável, ou começar a sufocante travessia do esquecimento, a necessidade insuportável de apagar da cabeça o que insiste em ficar no coração?

Para Nietzsche, a esperança é o pior dos sentimentos, pois só prolonga o tempo do sofrimento e da dor. Em parte fecho com ele, em parte não. No amor, passado o martírio de uma desilusão, a esperança pode ter uma outra face, mais otimista e mais certeira. E invariavelmente, cedo ou tarde, tem. A felicidade vem, silenciosa e sorrateira. Fugaz.

Um dia, como disse em crônica intitulada O Ciclo vicioso da paixão, você, leitor ou leitora, depara com a boa nova. A atração se dá como em milagre. O jeito charmoso com que ela atravessa a rua. A elegância com que ele se veste. A forma como ela atende o telefone, como recompõe o cabelo ou renova o batom. A textura da pele, a penugem dourada do bumbum dela, quando, displicente na areia da praia, passa o protetor. Os olhos que você nunca viu iguais, quando, a pedido, abaixou os óculos de sol. A voz ligeiramente rouca com que ela se dirigiu ao garçom. A sensibilidade dele, o jeito como ela movimenta as mãos. E, sem avisar ou pedir licença, o coração vai batucar, os olhos brilhar. O fogo passageiro da paixão.

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