Casablanca

A cena final de Casablanca é sem dúvida uma das mais bonitas do cinema. Como nem todo leitor desta coluna terá visto o filme - e os que o viram talvez não recordem dele amiúde -, sinto-me motivado a (re)contar o que me parece essencial na história, que se passa nos anos 40 do século passado.

Vencedor do Oscar de 1943 como melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro, Casablanca se passa no Marrocos, à época uma possessão francesa em que aportavam aqueles que queriam fugir dos horrores da Grande Guerra rumo à América. Era uma travessia complicada: em sua grande maioria, os refugiados partiam de Paris, seguiam para Oran, na Argélia, e de lá para Lisboa, de onde era possível o sonho de chegar à América. O sucesso dessa empreitada, como é comum em tais circunstâncias, envolvia corrupção da polícia. O clima era terrificante e os que não tinham dinheiro esperavam meses até obter seus vistos de saída.

Nesse cenário de angústia e medo, pois, se passa essa belíssima história de amor, um triângulo entre Ilsa (interpretada pela estonteante Ingrid Bergman em momento culminante de sua carreira), Rick, seu ex-namorado, e seu marido Victor Laszlo. O filme, em flashback, dá-nos a conhecer o romance de Ilsa e Rick. Os dois têm de deixar Paris com a invasão dos alemães, mas Ilsa, na hora do embarque, não aparece, enviando para Rick um bilhete de despedida. Algum tempo depois, já casada com Laszlo, Ilsa chega a Casablanca e depara com seu ex-namorado Rick. A cena transcorre no Rick's Bar. O filme coloca, assim, as primeiras reflexões sobre o amor: pode-se amar duas vezes a mesma pessoa? Ou o amor de Ilsa jamais morrera? O que justifica, então, não ter partido com Rick de Paris? Já existira Laszlo em sua vida? Que bela trama, tão simples e ao mesmo tempo tão complexa.

É antológica a fala de Rick na cena em que Ilsa apresenta-o a seu marido dizendo conhecê-lo de Paris. Na contramão do que se diz sempre sobre os homens, que nada lembram dos encontros amorosos, Rick diz: - "Eu me lembro de todos os detalhes. Os alemães vestiam cinza e você azul." Noutra cena emocionante, Ilsa pede a Rick os vistos de saída para que possa salvar Laszlo. Num rompante da paixão, Ilsa e Rick abraçam-se e decidem partir juntos. A proxima-se a cena final de Casablanca, que disse considerar uma das mais bonitas do cinema.

No aeroporto, minutos antes da partida, encontram-se Ilsa, Lazslo e Rick. São dois os vistos e alguém terá de ceder. Numa atitude estóica, que arrebata os espectadores dessa obra grandiosa, Rick abre mão do seu amor por Ilsa em favor de Laszlo. Tomada de paixão pelo ex-namorado, Ilsa indaga: - "E nós, Rick?" E ele, do alto de sua dignidade, desfecha: - "Nós sempre teremos Paris." Arrepiante.

Acho que esta cena, na simplicidade de seus recursos, reedita de forma tocantemente poética a história de tantos amantes. Quantas vezes na vida temos de renunciar a um grande amor. Na dilacerante dor de tantas decisões, quantas vezes temos de sacrificar um grande amor. O amor de Rick transforma-se, na gratuidade de um instante, na memória dolorosa dos momentos felizes. Na vida de todos nós, aqui e além, o amor está condenado a ser apenas uma bela recordação. Mas como dói!






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