Crônica para um desesperado

Acompanhando pela tevê o seqüestro de uma adolescente pelo ex-namorado em São Paulo, me veio à cabeça um singelo poema de Drummond: "João amava Teresa que amava Raimundo/que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/que não amava ninguém". Pondo de lado a complexidade do problema, que sei envolver questões as mais profundas, acho que esses versos vão à raiz do drama desses jovens, que um dia se desejaram tanto, e que, agora, vivem um pesadelo sem nome. Lindemberg, 22, continua amando Eloá, 15, que não o quer mais. A vida dos amantes nem sempre é a arte do encontro, como quis Vinícius. Em maior escala, quem sabe, é feita de desencontros. É o que me parece estar na origem do caso dos adolescentes de Santo André.

Na sua juventude, Lindemberg não está sabendo lidar com o sentimento de perda e o seu amor, neste instante, se confunde com a posse do objeto amado. Para ele, Eloá é insubstituível e não existem outras garotas que possam vir a ocupar o seu espaço. A paixão é algo delirante, é sonho que sobrepuja a realidade, e, quando uma hora acaba, que sempre acaba, deixa essa sensação de torpor e impostura. Com o tempo, vamos aprendendo a suportar a realidade 'insuportável', a buscar a felicidade que nunca será eterna, que vem em ciclos, como as ondas no mar. Rezo para que a vida dê a esse jovem a chance de um dia compreender isso, o que, infelizmente, pressupõe passar pelo inferno que vive agora, quando Eloá, a "razão" de sua vida, deixou de amar. De amá-lo, o que é pior.

"O espírito humano não suporta tanta realidade", diz o poeta. Lindemberg ainda carrega dentro de si o fogo olímpico da paixão. Eloá, não mais. E como é difícil para quem ama deixar de ser amado. Reitero o que escrevi certa vez numa crônica, citando Alejandro Gândara: "Amar sem ser amado é que nem estar num barco e enjoar: você pensa que vai morrer, e os outros só riem". Lindemberg não tem passagem pela polícia, é de índole pacífica e admirado pelos colegas com quem joga futebol, disseram dele os vizinhos. O que se passa, então? Apenas está inconformado com o fim do namoro, e, na sua visão de amante atormentado, nada mais importa.

Um dia, quando menos esperar, haverá de abrir a janela e encontrar lá fora a manhã banhada de sol, lá onde estarão as mesmas coisas que haviam perdido para ele o sentido, "as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos", como falou Gullar. Rezo para que Lindemberg, enxugados os olhos, possa um dia se perguntar: Num mundo tão cheio de mulheres, por que meus olhos só enxergavam os olhos de Eloá?" Quando isso ocorrer, esse maravilhoso despertar, com exatidão de linguagem se dirá: Está curado! Perfeito. O amor-paixão é doença, e, por isso, faz o doente querer morrer ou matar. Que Lindemberg, nos seus pouco mais de 20 anos, possa aprender aquilo que só o tempo é capaz de ensinar. O amor é autoconhecimento e compreensão do outro. O amor é reciprocidade, não existe se não é compartilhado. E, acima de tudo, coisa que a desesperança não o deixa no seu desespero entender, o amor é respeito pela liberdade, pelo direito de não querer continuar.

P.S. Crônica publicada em outubro de 2008 e reeditada neste espaço a pedido de uma leitora, que a cita em dissertação de mestrado sobre crime passional. O caso, infelizmente, como se sabe, teve um final trágico.

Um comentário:

  1. Meu querido Álder,
    Obrigadaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Seu texto está na minha dissertação. Que bela crônica! Bjs

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