A humanidade do olhar

Li na Folha, edição de domingo 6, uma declaração do cineasta belga Luc Dardenne que me chamou a atenção: - "O cinema pode ter sido no passado uma terrível ferramenta de propaganda, de disseminação de preconceitos assassinos. Mas ele pode também mostrar seres humanos complexos, singulares e, ao mesmo tempo, universais, que escapam a todos os preconceitos e que são capazes de sofrer pelas pessoas que também sofrem, que são capazes de ser felizes pelas pessoas que manifestam sua alegria de viver. O cinema se interessa pelo ser humano, qualquer que seja ele. Essa é a humanidade do seu olhar".
 
Como tivesse acabado de chegar do cinema, onde fui assistir ao O impossível, o comovente drama do catalão Juan Antônio Bayona, a afirmação de Dardenne caiu como uma luva para o que o filme repercutira em mim.
 
Baseado em fatos reais, o tsunami que devastou a costa asiática em 2002 e fez algo em torno de 230 mil vítimas fatais, o filme não impressiona apenas pela violência das imagens do desastre, de resto já abusivamente mostradas pela tevê. Vai muito além disso, uma vez que o roteiro sustenta-se no que existe de humano, demasiadamente humano em meio aos horrores da tragédia: a capacidade de sofrer com o outro e, mesmo sendo também vítima direta da dor, física e emocional, encontrar forças para solidarizar-se e buscar formas de diminuir o sofrimento alheio. 
 
É o que Bayona soube explorar com a competência de um mestre ao narrar o pesadelo de uma família espanhola que sobreviveu ao maremoto. Assim, o que poderia ser apenas um filme sobre uma tragédia de grandes proporções, vai se tornando aos poucos uma narrativa sobre o amor à condição humana.
 
A cena em que Maria (Naomi Watts), gravemente ferida, decide ajudar um garoto sobrevivente, expondo ainda mais a risco sua vida e a do filho Lucas (Tom Holland), é inesquecível, o que terá um belo contraponto quando mais tarde, no hospital, Lucas vê à distância Daniel, o garoto a quem salvaram, brincar nos braços do pai: em plano próximo, embora devastado pela dor, quando pensava ter perdido o pai, a câmera apenas registra o brilho nos olhos de Lucas. Um plano a um tempo triste e profundamente feliz.
 
No final, todos reunidos outra vez, o impossível que intitula o filme, Lucas conta para a sua mãe: "Eu vi Daniel. Ele estava feliz nos braços de um homem que me pareceu ser seu pai". Sublime.
 
Sem esquecer a cena em que um homem, com a carga da bateria do celular exaurindo-se, empresta o aparelho para que Henry (McGregor) possa se comunicar com um familiar. Na aparente desimportância do gesto, que só se pode dimensionar no contexto de suas circunstâncias, está toda a humanidade do olhar do cinema a que se referiu Luc Dardenne.
 
Por essas e outras razões, que vão da segura direção de elenco à competente escolha de suas estratégias narrativas, O impossível convence, e Bayona volta à cena em seu segundo longa com um brilho próprio que o coloca de vez  entre os melhores realizadores da atualidade.
            
           

Um comentário:

  1. Saudações, Álder!

    Excente crônica, e continue nessa: desossando as boas e más películas.

    Abraços e sucesso em 2013.

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