Coerência entre o pensar e o dizer

Para Valéria, pelo exemplo

Conversando com um leitor, em momento de descontração, percebo a insinuação de que vê um descompasso entre o que tenho escrito ultimamente e o que realmente penso sobre alguns assuntos aqui explorados. É claro que os escritos sobre relacionamentos (o que estava em pauta) constituem o objeto de sua crítica, que, embora natural para aqueles que tornam públicas suas ideias, antes revelam o que pensa o meu interlocutor sobre a matéria, o que respeito inteiramente. Não bastasse a minha formação intelectual (tome-se aqui o termo dentro dos limites do que quero dizer), mais voltada para a dimensão humanística da realidade, insisto em que o homem é um eterno vir-a-ser, entendendo-se isso como compreensão de que mudamos todos os dias, de que crescemos na perspectiva do nosso conteúdo interior, enriquecemo-nos enquanto pessoas, o que, por certo, terá chamado a atenção do leitor sobre as ideias que tenho emitido neste espaço acerca de diferentes assuntos. Relacionamentos, por exemplo.

Acho que essa discussão deve passar pelo que o filósofo francês Michel Foucault, na introdução ao livro História da Sexualidade, chama de "estética da existência", ou seja, esse desafio que é construir a vida como uma obra de arte, dentro dos limites e das possibilidades de cada um. A ideia foucaultiana, percebe-se, tem gerado mal-entendidos a torto e a direito, mas consigo entender o que isso significa em essência - ou penso entender, para não incorrer na atitude pretensiosa de me fazer íntimo de um filósofo reconhecidamente difícil como Michel Foucault. O que me parece fundamental, no que chama de estética da existência, não passa pela retomada dos padrões éticos da Antiguidade greco-romana, isto é, a obediência rigorosa dos preceitos estabelecidos como politicamente corretos, mas a capacidade de ver a vida por outro ângulo, mais pessoal, descontraído, criativo e irreverente.

Não tenho a pretensão, como disse, de fixar parâmetros para o que seja uma vida como arte. Muito longe disso. Quero, tão-somente, fazer uma reflexão sobre coerência entre o pensar e o dizer, que me parece ser o ponto que inquieta o respeitado leitor. Numa palavra, aprendi que somos seres in fieri, independentemente da idade cronológica que venhamos a ter. Aprendi que somos capazes de melhorar, de compreender melhor hoje o que não compreendíamos ontem com muita clareza. E, acima de tudo, que somos humanos, pressupondo isso dizer que mudamos, que devemos rever nossos conceitos e julgamentos sobre os outros e sobre os fatos em que estivemos, estamos ou estaremos envolvidos em alguma circunstância de nossas vidas. O que não é um tipo de contradição pela contradição. Acho que é isso que quis dizer Foucault com o seu conceito de 'estética da existência'. Em outras palavras, construir a vida como arte é ter motivação para fazer dela algo prazeroso, em que pesem os deslizes e escorregões ao longo do caminho de nossa existência, para aludir ao verso antológico de Alighieri, na Divina Comédia .

Não é outra a razão por que tenho escrito sobre relacionamentos (vida amorosa, isso quer dizer) professando ideias que, vejo, desagradam a alguns, a exemplo do aludido leitor. Faço-o por entender que podemos tornar esses relacionamentos mais felizes, mais bem-humorados, inventivos, sensuais. Porque acredito que devemos rir de nós mesmos pelos equívocos cometidos ontem, a fim de não repeti-los amanhã. Porque acho que precisamos aceitar os outros em sua dimensão alteritária, o que haverá de nos fazer mais arteiros e mais 'estilosos' como pessoas. É isso, por certo, o que Foucault defende como estética da existência, algo de que, mais ou menos, todos nós somos - ou viremos a ser - capazes de construir dentro de nós mesmos. Só assim legaremos à posteridade o exemplo de uma vida bela, "coisa" a ser 'admirada e seguida por sua ligação intrínseca com o Bem e a Verdade'.

21 de junho de 2009

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