Adeus ao bom menino

Sei que haverá quem diga: - "Há tanto para nos comover, aqui mais próximo... " Não importa, assumo. Estou comovidíssimo com a morte de Michael Jackson. Era mais novo que eu, mas cresci ouvindo as suas músicas. Ben, o primeiro clássico, ouvíamos à exaustão, eu e um outro Jackson, o nosso Miguel Felipe. I`ll be there, Abc e tantas outras. A sua música, assim, marcou a nossa geração. Lembro de que muitos anos depois, acalentei a primeira paixão embalado pela voz do menino-prodígio. Era One day in your life, que considero, ainda, e sem qualquer fundamentação teórica, a mais bela música pop de todos os tempos. Depois, vieram sucessos grandiosos, na linha de Thriller, que víamos no Fantástico, à época a única via de acesso aos lançamentos do show business internacional.

Penso que, com Michael Jackson, morre muito mais que um fenômeno da música de todos os países (que ele era muito mais que um artista americano), morre um pouco da capacidade de sonhar da minha geração, essa vontade, cedo ou tarde frustrada, de se manter a juventude, em que pesem os cabelos brancos ou, como no meu caso, a sua falta. É como se caísse a ficha: - "Estou ficando velho, não há muito sobre o que sonhar." Sim, acho que é isto. Parodiando Lennon, é como se acordássemos de um sonho. Acabou.

Ao lado desse prodigioso talento para compor e cantar, tinha Jackson uma expressão plástica deslumbrante, com que só se poderia estabelecer paralelos se falássemos de Astaire ou Presley. Com este, aliás, passam a ser imensas as semelhanças de vida e morte.

Uma coisa, no entanto e acima de tudo, ecoa no meu pensamento, agora que Michael Jackson morreu. Como se manteve menino, como não aceitava envelhecer. Se o novo é conjuntural, efêmero, transitório, nele essa lógica foi rompida. A sua imagem era, invariavelmente, a imagem de um garoto, mesmo agora, quando atravessaria a barreira dos 50 anos. A sua aparição trazia sempre a alegria das crianças. Mesmo quando embranquecida a pele, por força de doença ou vaidade ingênua, e os traços fisionômicos desfiguravam-se, era menino o rosto que se via por sob as máscaras e os lenços. É que, em Michael Jackson, o tempo era psicológico, metafísico, bergsoniano, não se podia medi-lo pelo passar das horas e dos dias. Daí advinha a jovialidade, o coração infantil.

Com a morte desse artista extraordinário, da figura a um tempo adorada e repudiada do gênio, não exagero ao dizer que morre um estado de espírito em mim e nos de minha geração. Resta-nos, assim, que nem tudo se acaba com a morte de um ídolo, para além do ouvido, abrir a alma ao som de Billie Jean, Beat it, Bad ou, como que de propósito, We are the world, com que se deu a ver ao mundo o quanto era generoso o coração do menino, o seu amor pelos homens de todos os cantos. Como no verso de Um dia em sua vida, "é assim que as coisas são."

26 de junho de 2009

4 comentários:

  1. Brilhante, Mestre.

    Quando li seu texto, pude ver em palavras exatamente o que eu estava sentindo e não sabia como expressar.

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  2. Obrigado pelo carinho e pelo privilégio de tê-la como visitante do blog. Grande abraço!

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  3. Muito expressivo o seu texto, realmente pos em palavras como muitos, de nossa geracao, estao sentindo neste momento. Nao e so uma idolatria vazia, e a "ficha caindo", e a constatacao de uma realidade que que se impoe. No meu caso, foi a lembranca de sentimentos que eu ja havia esquecido existirem em mim, e que eram tao bons e inocentes.

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  4. Agradeço-lhe pelo comentário e pela visita ao blog. Volte sempre!

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