O exemplo de Frida Khalo

Eu pinto-me porque muitas vezes estou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.

(Frida Kahlo, 1907-1954)

Revejo em DVD o filme de 2002 sobre Frida Khalo, com direção de Julie Taymor. Confesso que a minha admiração pela artista mexicana prende-se muito mais ao exemplo de coragem que nos legou, que a qualidade de sua obra, que não é pequena, diga-se de passagem. Um tipo de surrealismo ou naïve que mais inquieta que surpreende, esteticamente falando. O que me impressiona, reafirmo, é a determinação por que Kahlo orientou sua vida, marcada por tantos e tão grades desafios, o que só reportando-me a sua biografia pode dar ao leitor a dimensão do que estou falando. Teve poliomielite aos 6 anos, tinha uma perna menor que a outra. Entre 17 e 18 anos, sofreu um espantoso acidente de carro, de que saiu dilacerada: uma barra de ferro do ônibus entrou-lhe pelo pescoço e saiu pela vagina. Teve a espinha destroçada, os ossos dos pés esmagados, a pélvis, algumas costelas quebradas, o ombro afundado, inúmeras outras fraturas por todo o corpo. Sobreviveu a tudo.

Submeteu-se a trinta operações, teve uma perna amputada e, por um longo tempo, ficou dependurada por fios de aço, tolhida por coletes e praticamente vegetando. Abria os olhos, apenas, e, com mais dificuldade ainda, a boca, por onde uma sonda dava-lhe de comer, para que não morresse de inanição. Apesar do sofrimento desumano, venceu todas as barreiras, acreditou na vida, casou, descasou, voltou a casar com o prestigiado pintor Diego Rivera. Levou uma vida sexual ativa, teve muitos amantes - Trotski, o revolucionário russo, um deles -, participou da atividade política, liderou movimentos feministas, proferiu palestras, rompeu preconceitos de toda ordem e, num exercício de catarse que a tornou sublime, dedicou-se à pintura, de cuja paleta sairiam obras importantes e admiradas mundo afora.

Era uma mulher vaidosa, apesar de tudo, independente (no sentido mais profundo da palavra), vestia-se de forma alegre, gostava das cores vibrantes, contagiava a todos com suas excentricidades, amou homens e mulheres, fez e desfez, pintou e bordou. Seus quadros, porém, expressam o que há de mais dramático na alma humana. Abortos, sangue, fetos, pregos, nuvens, figuras com que sublima a mais lancinante dor. Mais que o sofrimento físico, no entanto, provou o gosto amargo das grandes decepções. No campo passional, para que se tenha uma idéia, suportou com dignidade os desvios de personalidade de Rivera, um sedutor incurável, de quem queria tão-somente a lealdade que nunca teve. Rivera, entre muitos outros, teria um caso com Cristina Kahlo, irmã de Frida, circunstância que, por suposto, mais feriu a pintora mexicana.

Morreria aos 47 anos, não sem que pudesse dar um caráter conclusivo ao conjunto de sua obra, registros artísticos de sua trajetória comovente. Em se tratando de Frida Kahlo, no entanto, para além das marcas indeléveis de um destino brutalmente adverso, ficou o exemplo de alguém que conseguiu distinguir o essencial do aparente, o amor em vez do desespero, a vida em vez da morte. Por isso, para citar o escritor peruano Vargas Llosa, que a exalta no livro Linguagem e Paixão,"em cada um dos seus quadros escutamos seu pulso, suas secreções, seus uivos e o tumulto sem freio de seu coração".


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