Catinha dos dribles desconcertantes

"Antigamente a questão era ‘ser ou não ser’. Hoje é ‘ter ou não ter’."
(Mário da Silva Brito)
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Tanto quanto o famoso solilóquio de Hamlet na primeira cena do terceiro ato, da peça homônima de Shakespeare, ser ou não ser, eis a questão!, impressiona-me a fala do protagonista na cena do cemitério, quando tem nas mãos a caveira de Yorick: “Deixa-me ver. (Pega a caveira) Que lástima, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio - era um tipo de infinita jocosidade, e da mais notável fantasia”. É que esta cena, além dos outros muitos temas que explora, faz alusão à fugacidade da vida, à efemeridade das coisas, ao passageiro na história dos homens.

Dia desses escrevi sobre o destino, a propósito de levar a efeito uma reflexão em torno do que está “escrito nas estrelas” sobre o futuro de cada homem. Reportei-me a políticos poderosos, que hoje de muito pouco são capazes; a celebridades para as quais o glamour desapareceu e que passaram a viver no esquecimento; a belezas que se transformaram em feiúra; a ilusões que resultaram em pó. Acusaram-me de negativista, posto que não tive, em relação ao desconhecido, expectativas positivas. Aceito, mais insisto em que toda lição de liberdade vem do cárcere, como nos falou Mário de Andrade, e é das adversidades que se devem tirar os melhores ensinamentos. O exercício da humildade, a título de exemplo.

Na praia que freqüento desde que cheguei a Fortaleza, há coisa de dois anos, há um vendedor de coco que chama a atenção pela forma como caminha, e que, com o irrestrito respeito, mais lembra um pato em movimento. Leva um bom tempo para percorrer as menores distâncias, num ritmo lento que desenha na areia semicírculos absolutamente iguais. Por suas limitações de saúde, em que pese ser ainda um homem de pouca idade, conquistou o maior número de fregueses entre os vendedores de coco que ali se fixaram. Custa um real a unidade, água dulcíssima e bem gelada. Nada que mereça um registro mais atento, concordo, não fosse esse humilde vendedor de coco Amadeus ou, como se tornou conhecido um dia, Catinha, dos dribles desconcertantes e do chute prodigioso que levantou tantas platéias.

Foi ponta-direita do Vasco da Gama dos áureos tempos - Roberto Dinamite à frente -, era um jogador criativo, cheio de firulas e improvisações. Um dia marcou um gol num Vasco vs. Flamengo que deixou o goleiro Raul a ver navios. Um petardo de fora da área, desses que o torcedor jamais esquece. Em final de carreira jogou pelo Ceará Sporting Club e chegou a conquistar, quando menos, um campeonato como ponta-direita do vovô. Uma dia, madrugada adentro, numa churrascaria de Fortaleza, comemorando uma vitória sobre o tricolor, foi alvejado por um torcedor do time adversário. Teve um tratamento doloroso, meses a fio. Escapou da morte, é bem verdade, mas não das seqüelas que o fazem lembrar um pato com o seu andar. Ao escrever esta coluna, quase chego a ouvir aqueles muitos gritos da praia: “Catinha, sai um bem gelado!” E a vê-lo, sorridente e digno, caminhar com o produto nas mãos. Levantou o Maracanã. Vende coco a um real.
P.S. O texto acima é 'pura' ficção, bem na linha do que fez o cronista Carlos Drummond de Andrade sobre a visita, jamais ocorrida, de famosa atriz americana a Belo Horizonte. O verdadeiro Katinha (assim, com k) mora no Paraná e vive em condições bem diferentes da personagem desta crônica, um tipo de provocação aos amigos vascainos, que acorreram à praia para encontrar 'o ídolo'.

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