Saudemos Che!

"Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás"
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Há tempos não lia algo tão sórdido quanto a reportagem de capa da revista VEJA em sua última edição (“Che, a farsa do herói”). Numa demonstração explícita do que pode haver de mais leviano em termos de jornalismo, a mais importante revista brasileira distorce fatos, manipula informações e revela incompetência intelectual ao tratar com a figura do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara, a quem rotula de feroz e amante da violência pela violência. Não bastasse o cabotinismo da matéria em si, VEJA parece entender que os seus leitores são títeres, incapazes de exercitar aquilo que lhes é mais elevado: o pensamento crítico.

O lead da reportagem (como no jargão jornalístico se chama a abertura da matéria, aquela em que se procura transmitir o fato objetiva e sinteticamente), chega às raias da irresponsabilidade e da total ignorância do mais elementar sentimento de justiça: afirma que Che agiu com pusilanimidade em suas últimas palavras, que a revista considera um “pedido de misericórdia, o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da derrota” (sic). Ademais, como um lagarto sedento, a reportagem cospe à direita e à esquerda, comete equívocos e revela-se contraditória, mesmo na perspectiva do leitor mais desatento. Veja-se: “Você vai matar um homem”, reafirmando o que documentam as mais credenciadas biografias de Che sobre o que disse o guerrilheiro ao tenente Mário Terán, a quem cumpriu disparar o tiro de misericórdia.

VEJA considera desprezível o cidadão Ernesto Guevara Lynch de la Serna, numa prova indisfarçável de suas intenções ao escrever sobre o herói cubano (Che nasceu, de fato, na Argentina, em 14 de maio de 1928), que afirma tratar-se de um homem dominado “por suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa”. Intencionalmente, como se vê, e movida por razões inconfessáveis, a mais lida revista do país parece esperar de um revolucionário a franciscana mansidão de um pacifista, condenando a determinação com que - na lógica de uma guerrilha e submetido às regras de uma ação revolucionária -, executou muitos dos seus adversários. Risível.

Em observação aos limites de espaço, por fim, deixando aos leitores desta coluna a conclusão sobre o que publicou a referida revista, contento-me com reproduzir trechos da última carta de Che aos filhos Hilda, Aleida, Camilo, Célia e Ernesto: “[...] Seu pai foi um homem que atua (sic) como pensa e, por certo, foi leal a suas convicções. Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poder dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é que é o importante e de que cada um de nós, sozinho, não vale nada. Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo, qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais linda de um revolucionário. Até sempre filhinhos, espero vê-los ainda. Um beijão e um abraço do papai”. Se proferiu ou não a frase famosa, como questionou a revista VEJA, é mesmo secundário. De seu próprio punho veio a confirmação: Endureceu, sem perder a ternura jamais. Há exatos 40 anos de sua morte, saudemos Che!

2 comentários:

  1. Meu caro professor. Sua crônica deveria ser explorada nas escolas como exemplo de texto bem escrito, coerente e coeso. Parabenizo o colega pela competência como escritor e pelas idéias que defende com tanta paixão e tanto entusiasmo. Admirável!

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  2. Leitor amigo: seu comentário enobrece este humilde blog, não pelo que traz como elogio apenas, mas pela exemplar sensibilidade com que avalia alguma qualidade da crônica, que, quero crer, notabiliza-se tão-somente pela sinceridade do conteúdo e paixão com que torna público o seu ideal de justiça ao homenageado. Viva Che!

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