Ainda sobre a paixão

Certa vez escrevi uma crônica sobre um amigo que corre léguas da paixão. E choveram e-mails sobre o que escrevi, que pensava raro. Não é. Pude ver que o contingente dos que fogem de novas relações é imenso: - "Tenho medo de sofrer!"
 
Proust termina um dos romances de Em busca do tempo perdido, No caminho com Swann, com uma reflexão desconcertante: - "E dizer que desperdicei anos da minha vida, que quis morrer, que tive o meu maior amor por uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo." É o expediente de que se vale Marcel, o narrador, para vasculhar sua mais funda subjetividade sobre a complexidade desse sentimento a que chamamos amor. A força do romance reside aí: o que é amar? Para Swann, "amar é desejar amar, é sofrer, é ser escravo de um sentimento, é projetar no outro qualidades estéticas e eróticas mentirosas."
 
A Odette que Swann ama é irreal, é a fantasia que ele mesmo desenhou. Mais que a paixão pelo outro, a personagem ama a si mesma, numa busca de fundir o sujeito com o objeto, matriz das vontades mais incontidas de quem se deixa dominar por essa loucura (maravilhosa!) que é a paixão. Sob o efeito dessa embriaguez, o que se quer é a fusão impossível das individualidades. A bela Odette é, em realidade, um ser comum, quase vulgar. Mente, e levara uma vida bem diferente daquela com que sonhou Swann na sua idealização do amor. Sob a suspeita de que está sendo traído, ele se deixa devastar pelo ciúme. A trágica passagem da ventura para a desventura, que povoa as mais brilhantes páginas da grande literatura.
 
Ocorre a Swann, como a Bento Santiago e Otelo, como a Eulálio e Assumpção, o mais corrosivo dos sentimentos, o maior de todos os males. Lembremos Shakespeare: - "Bagatelas leves como o ar parecem, a um ciumento, provas fortes como as que se encontram nas promessas do Evangelho."
 
Quando se ama, diz Sthendal, "a cada novo objeto que surge aos olhos ou à memória, encerrado numa tribuna e atento a ouvir o que se discute no parlamento, ou indo a galope para a guarda, sob o fogo do inimigo, sempre se acrescenta uma nova perfeição à ideia que se tem da amada ou descobre-se um novo meio, que a princípio parece excelente, de ser ainda mais amado por ela."
 
Penso que não é o que se dá com os que se desiludem e se sentem incapazes de recomeçar suas vidas. Para muitos desses, como o amigo a quem dediquei minha crônica, a possibilidade de um novo relacionamento é sempre um movimento para o abismo. Vê-se no outro a ameça de uma nova desilusão. Aos seus olhos, as incertezas de um novo amor se torna algo muito pesado, quase insuportável. Para o coração que sangra, é o mal que se avizinha, é a dor que se anuncia, de mil formas, a cada novo encontro.        


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