Danuza

Gosto da Danuza Leão. Pasmem: gosto da cronista, do texto enxuto, ligeiro, das posições corajosas, da autenticidade com que expõe sua opinião sobre o que quer que seja. Leio sua coluna na Folha como leio, por exemplo, Cony. Nada de comparações. Apenas leio e gosto do que escreve, como escreve. Seus textos são inteligentes, bem-humorados. Com todas as letras, gosto. Danuza está de bem com a vida e soube envelhecer com dignidade, o que sabe transmitir de forma agradável nas suas crônicas. Aliás, ocorre-me uma passagem de um dos seus livros em que narra ter comemorado sozinha, num hotel de Paris, seu aniversário de 70, 72 anos, não me recordo. Sabe o que é, para uma pessoa como ela, com todo aquele glamour, estar sozinha, num país distante, e afirmar ter sido esse o seu melhor aniversário? Ela e a companhia de uma garrafa de vinho. Mesmo, importante, estando no Ritz. É isso, creio, estar de bem com a vida. Saber lidar com a solidão, que quase sempre está ou não dentro de nós, na multidão ou no silêncio do quarto.

Dia desses, estando num consultório médico, tiro daquela cestinha em que a revista mais nova é de três anos pelo menos, uma Claudia de julho de 2005 e deparo com uma crônica dela que me chamou de tal modo a atenção, que pedi à atendente, na maior sem-cerimônia, para trazer comigo. Intitula-se Não me contem. O texto discute a infidelidade e Danuza, corajosamente, sai com esta pérola: "Pois eu espero que o homem que me trair tenha a delicadeza de negar sempre. Não me interessa que ele seja sincero e verdadeiro; quero achar que ele nunca me traiu, e para isso ele pode (e deve) mentir descaradamente, dizer que estou pirada, que caia um raio em sua cabeça se estiver mentindo. Como nenhum raio vai cair mesmo, ele pode falar à vontade; eu vou acreditar em tudo e ficar bem feliz." Polêmica à parte, é ou não é uma mulher autêntica?

Não se trata de estar defendendo aqui a condenável tese masculina de que negar sempre é a única forma de contornar a situação em casa, quando as evidências apontam para a consumação do fato, ou seja, a traição. Acho a ideia uma babaquice. Até porque, não-raro, a verdade se confunde com a mentira aos ouvidos inseguros de uma mulher. O que me impressiona na colunista é a forma como torna público um pensamento tão questionável, sobretudo na ótica feminina. Estou falando da honestidade do seu olhar, da sinceridade atrevida com que sabe lidar com temas assim delicados. Principalmente, diga-se, quando esse pensamento vem de uma mulher que protaganizou um dos mais escandalosos casos de infidelidade do Rio de Janeiro da época. Como sabem, Danuza foi casada com Samuel Wainer, um dos mais renomados jornalistas brasileiros do século passado, um homem de um prestígio imenso, rico e elegante. Wainer era dono do A última hora e contratara, como redator, Antonio Maria, cronista e compositor que se tornaria célebre pelo inexplicável poder de sedução que exercia sobre as mulheres. Justifico o 'inexplicável': Maria, segundo a própria Danuza afirma em um dos seus livros, que li outro dia no folhear vespertino das livrarias, era gordo, feio e desajeitado. Menos para o coração das mulheres, que conquistou aos montes. Apenas com aquilo com que os sedutores fazem a diferença na hora do jogo do acasalamento. Uma coisa que trazem do berço e, infelizmente, guardam a sete chaves.

Dando um desconto (e meio na contramão), como cronista considero Danuza o Nelson Rodrigues de saia. Escancarada, mesmo para o desconforto de muitos.

Mas, ainda sobre Maria, ao lado de não possuir dotes físicos - digamos -, apolíneos, era presunçoso e chegou a afirmar certa vez, num tipo de esnobismo ainda mais desinteressante, não existir mulher que resistisse a alguns minutos de sua conversa. Dizem que Balzac, o homem de La comèdie humaine, era assim. Vai ver, no caso do compositor nordestino, terá sido isso que levou aos seus braços mulheres encantadoras. Danuza Leão, para ficar num exemplo.







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2 comentários:

  1. Interessante é que também sou um apaixonado por Danuza Leão e tive o privilégio de vê-la no esplendor de sua juventude, recentemente na Casa Amarela Eusélio Oliveira, em um filme clássico de Glauber Rocha: "Terra em Transe". Lia suas crônicas na revista Época quando eu era assinante e simplesmente as amava, eram de uma sutileza "crua" e verdadeira e de uma sinceridade assustadoramente agradável.

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  2. Obrigado pela visita ao blog. Ela é mesmo muito interessante. Valeu!

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